Editores baianos investem em produção artesanal de livros



Eron Rezende




  • Fernando Vivas | Ag. A TARDE
    Reinofy Duarte e Suzana Rezende , da Domínio Público - Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE


    Reinofy Duarte e Suzana Rezende , da Domínio Público

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    A ilustradora Flávia Bomfim criou a editora Movimento Contínuo - Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE


    A ilustradora Flávia Bomfim criou a editora Movimento Contínuo

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    Reinofy Duarte e Suzana Rezende , da Domínio Público - Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE


    Reinofy Duarte e Suzana Rezende , da Domínio Público

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    A ilustradora Flávia Bomfim criou a editora Movimento Contínuo - Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE


    A ilustradora Flávia Bomfim criou a editora Movimento Contínuo
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Na primeira Feira de Publicação Independente da Bahia, realizada em
abril deste ano, 47 expositores ocuparam o vão central da Biblioteca
Pública, nos Barris, com uma fartura de produções que pareciam simular
um parque de diversões do mercado editorial.



Havia livros que se desdobravam em labirintos, pacotes de pipoca que
escondiam poesia, livretos numerados como são numeradas as joias - a
maior parte das criações, assinadas por pequenos grupos dos quais ainda
pouco se ouve falar no estado. "Foi uma catarse", lembra a ilustradora
Flavia Bonfim, organizadora do evento. "Serviu para escoar uma produção
que há muito tempo vem acontecendo na Bahia".



A produção, no caso, é um sinal do tempo. Hoje, já se sabe que a
internet não levou à extinção dos livros. Pelo contrário, ela parece ter
conduzido a um renascimento das publicações impressas. Nota-se isso na
forma como obras clássicas da literatura, que durante tanto tempo
estiveram disponíveis como folhetos baratos, estão sendo reeditadas com
projeto visual apurado - livros para serem manejados e admirados como
objetos de luxo. O raciocínio é: já que se tem acesso a conteúdo
eletronicamente, os leitores devem desfrutar das inúmeras possibilidades
de um livro.



Para os editores independentes, como os que exibiram seus trabalhos na
Biblioteca Pública, a moeda é a engenhosidade. "Você faz com o que tem:
uma impressora, uma linha para costurar as páginas, um conceito", diz
Flavia, que possui a "editora de uma mulher só", Movimento Contínuo, na
qual imprime as próprias ilustrações e trabalhos de fotógrafos amigos.
"Há muitos artistas que veem na publicação independente uma forma de
divulgar seus trabalhos e de ter controle sobre a edição. Mas não é um
mercado só para artista e designer. Acho que todo mundo pode desenvolver
uma relação íntima com o impresso".



Sem crise



A crescente das edições independentes e autorais está em todo o país.
Num paralelo, há a Feira Plana, de São Paulo, que reuniu, em fevereiro
deste ano, 120 expositores de 12 estados. E há, ainda, as feiras Livre e
Tijuana, também em São Paulo, a Parada Gráfica, que acontece há três
anos em Porto Alegre, a Pão de Forma, no Rio de Janeiro, e a Espanca, em
Belo Horizonte.



Comparecer a qualquer um desses eventos pode gerar impulsos
conflitantes aos apaixonados por livros. O primeiro deles é comprar
tantos quanto se pode. O segundo: lançar o próprio selo independente. E,
então, vem o terceiro: não lançar o próprio selo, porque todas as
fantasias que se poderia ter para um livro talvez já tenham calhado a
alguém e esse livro fora planejado e produzido em detalhes.



"A cada evento que participo me surpreendo mais com o apoio do público,
dos participantes e com a possibilidade de espaço para produção
editorial independente", diz Laura Castro, que, ao lado de Flavio
Oliveiras, fundou a Sociedade da Prensa, ateliê no Santo Antônio Além do
Carmo que vem editando trabalhos de poetas e artistas gráficos baianos.



"Fala-se tanto em crise do mercado editorial, mas em muitas feiras você
encontra gente que já vendeu dois, três mil exemplares. É comum o
pessoal dar soldout", diz Castro. "Em dia de feira, tem gente que às
cinco da tarde está limpando a mesa, colocando plaquinha de que foi
passear porque já esgotou".



O funcionamento da Sociedade da Prensa é uma síntese de como costumam
se movimentar as pequenas editoras. O ateliê cede aos autores uma
impressora caseira e uma máquina de serigrafia; os autores bancam a
impressão; a qualidade da publicação, os tipos de papel e as cores são
decididos em conjunto; o preço de venda, quase sempre, serve apenas para
bancar o custo de produção, o que leva a receita de que não se entra
neste mercado para ganhar dinheiro e todos dividem seus tempos com
outros empregos.



Como as feiras são as principais portas de saída das publicações (há,
ainda, pequenas livrarias, virtuais ou não), Laura e Flavio planejam,
para novembro deste ano, em Salvador, a Feira Taboão, um desdobramento
do evento ocorrido em abril. A Taboão ainda é um plano porque o casal
permanece em busca de apoio, ou seja, um espaço gratuito e que comporte
expositores e público.



Circular



A palavra que mais se ouve no ramo das publicações independentes é
"rede", seja quando o que se publica são apenas livros de artistas, como
faz a editora experimental Tiragem, ligada à Escola de Belas Artes da
Universidade Federal da Bahia, ou textos filosóficos, como faz o selo
editorial Azulejo, que funciona num dos quartos da casa da designer
Isabel Simões.



"Você sempre conta com a colaboração de alguém, seja para ceder um
texto, editar ou mesmo dar uma opinião", diz Isabel, que fundou a
Azulejo após ingressar no curso de filosofia da Ufba e sentir falta da
circulação dos textos produzidos pelos colegas. "Ainda que seja através
de um esquema artesanal, ninguém faz um livro para guardar debaixo da
cama. Há sempre uma vontade de fazer a informação circular. Como a
internet já é uma excelente plataforma para isso, o livro é o canal para
pensarmos o melhor formato para apresentar essa informação".



Em 2014, a Azulejo colocou no mercado cinco livretos com ensaios de
alunos do curso de pós-graduação em filosofia da Ufba. A impressora
usada foi a japonesa Risograph, feita originalmente para impressões mais
simples e que funciona quase como uma copiadora, mas que gera um
acabamento que se aproxima da serigrafia e do estêncil. "Possibilitar um
trabalho bonito e viável é o principal objetivo de um editor
independente", define Isabel Simões.



A ideia de uma "rede" aplica-se, também, ao intenso diálogo travado
entre autores e editores. Como não há contrato e ninguém trabalha por
obrigação, impera a conversa. Ou, como batiza o produtor Reinofy Duarte,
"a prevalência do 'nosso'". "É preciso gostar da jornada, não apenas da
meta. Se não for assim, dificilmente se chegará ao livro", diz.



Duarte, em sociedade com a designer Suzana Rezende, criou os selos
editoriais Esquema 42 (o número é uma referência ao prédio onde mora) e o
Papel Real. O primeiro, dedicado à poesia, publicou Quarenta e uns
sonetos catados (2013), de Alex Simões. O segundo, voltado aos contos,
apresentou O autor do leão (2014), de Saulo Dourado. Os dois livros
saíram com uma tiragem de 220 exemplares e já estão esgotados.



"No caso do livro de Saulo, incentivado por ele próprio, deixamos que
cada um pagasse o que quisesse. Teve gente que deu 20, 50 reais. Apenas
uma pessoa pagou dois reais pelo livro", lembra. "Nós não encaramos o
que fazemos como uma atividade lucrativa. O objetivo é pagar os custos e
ainda repassar 20% do valor arrecado para os autores. Nas duas obras,
conseguimos fazer isso".



O próximo passo, antecipa, será lançar um selo dedicado às crônicas e,
quem sabe, organizar um livro com seus próprios textos, aqueles que
"ficam pegando mofo na gaveta". Como justificativa para a empreitada,
ele recorre a uma crença que funciona como um elo entre os editores
independentes.



"Livros se tornaram não só textos a serem lidos, mas também fonte de
certo prazer hedonista, como caixas de joias", diz. "Mas os livros têm
uma característica peculiar: nunca se esvaziam, repõem a si mesmos de
forma contínua".



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