segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A misteriosa geração de escritores que não querem ler





Muitos autores estreantes passam cada vez mais tempo escrevendo e publicando do que na exploração de um livro novo



 


Antes de continuar, é preciso esclarecer – a leitura literária não é
obrigatória. Defende-se o direito de todo cidadão ter acesso a livros,
sobretudo livros de qualidade. A partir daí, se a pessoa vai se
transformar numa leitora ou não, é escolha dela. O hábito de ler não
torna um indivíduo necessariamente mais sensível e desenvolto do que
alguém que prefira outras coisas. Todavia, é de se pensar que a leitura
literária é obrigatória em duas ocasiões: quando você é um estudante/
profissional de Letras ou quando é escritor.



O primeiro caso é simples. Não faz sentido escolher uma carreira que
trabalha com a Literatura sem gostar do contato com ela. No entanto, é
impressionante a quantidade de pessoas que acreditam que podem escrever
um romance (ou mesmo uma trilogia) sem sequer lerem quatro livros por
ano.

Se um estudante de Letras precisa ter certo entendimento de conceitos
e recursos literários, o mesmo vale para o escritor. Ele trabalha com a
criação de pequenos mundos, e precisa ser muito consciente durante esse
processo.



É claro que não necessita de doutorado em Estudos Literários, mas o
escritor deve ter o domínio do seu ofício: como construir o enredo, como
imprimir ritmo à narrativa, como desenvolver os personagens, organizar o
processo criativo. Sem falar dos quesitos mais básicos, entre eles
coesão textual, ortografia e estilo do autor.



Acontece que a melhor maneira de se familiarizar com esses aspectos
tão caros à escrita é justamente ler. E ler textos bem construídos, que
tenham algo a ensinar em termos de “fazer literário”.

Como os maiores autores dos séculos XIX e XX escreviam tão bem, mesmo
sem cursos de escrita criativa? Porque eles liam, trocavam material
entre si, estavam sempre aprendendo a fazer Literatura com a própria
Literatura. Ao perceber como um autor trabalha determinados aspectos da
narrativa, o escritor pode levar esse know-how para sua própria
produção.

Já que escrevo, é comum que eu leia a mesma página várias vezes, faça
anotações, analise como a história se desenrola. A leitura não é apenas
lazer ou uma atividade que me põe para pensar/sentir. Ela é também
inspiração. Aprendizagem.



Mesmo que tudo isso pareça básico, uma piada circula entre os
editores: “Se todo mundo que diz que quer ser escritor lesse o tanto que
precisava para escrever, os problemas do mercado editorial brasileiro
acabavam”. E é verdade.



Aposto que você conhece muita gente que sonha em ter um livro
publicado, mas não seria surpresa se essas mesmas pessoas lessem muito
pouco ou tivessem uma experiência literária um tanto limitada (ler um
único gênero/autor, apenas narrativas previsíveis ou pouco trabalhadas,
etc).



Não que o hábito da leitura necessariamente transforme alguém em
escritor. É possível ser um ávido leitor sem ter vocação para a escrita
criativa. Mas é impossível ser um bom escritor sem ler. Cria-se até um
paradoxo: como o autor espera que as pessoas leiam e comprem seus livros
se ele mesmo não lê nem fomenta o mercado pelo qual mais deveria se
interessar? Como sabe que está sendo original, se não tem base para
comparação?



É visível que muitos autores têm investido em cursos de “aprenda a
consolidar uma carreira literária”. Isto é ótimo. O problema é que,
quando você lê os textos da pessoa, eles são mal escritos, pouco
desenvolvidos, repletos de clichês e até com erros de ortografia.



Do que adianta aprender a promover sua imagem e engajar leitores se o
principal – ou seja, a produção literária do autor – é fraca? É até
mais danoso, porque ele vai se divulgar por meio de textos ruins. Isso
afasta não apenas leitores, mas também oportunidades.



Talvez essa situação venha da crença de que a escrita é um dom que,
justamente por sê-lo, não deve ser estimulada além de si mesma. Algumas
pessoas de fato possuem uma inclinação maior para a criação literária
que, nas circunstâncias ideais, pode ser desenvolvida à excelência, mas
também entre essas circunstâncias ideais estão o acesso a livros, a
leitura crítica, o aprimoramento constante da própria escrita. E, acima
de tudo, qualquer um tem a capacidade de escrever melhor do que já
escreve.

E qual é a maior aliada desse processo? A leitura. De livros,
quadrinhos, artigos, matérias e ensaios capazes de inspirar. Nesse
universo das letras, uma coisa é certa: por trás de um único texto estão
muitos e muitos livros. Antes de ser escritor, é preciso, sobretudo,
ser leitor.





fonte:

A misteriosa geração de escritores que não querem ler
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