sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Questões múltiplas das artes

 

 

Questões múltiplas das artes


Nas artes visuais, artes gráficas e artes plásticas existem questões que se entrelaçam.  Dentre elas, a criação ou processo criativo e a independência do artista como criador.  Kandinsky, em sua busca pelo transcendente no abstrato, já abordava problemas semelhantes em 1929 quando afirmava sua visão sobre a relação entre razão e sensibilidade como um projeto em dois tempos na compreensão da própria arte: “Enquanto trabalho, a minha ‘cabeça’ silencia completamente.  Mas além do trabalho pictórico ‘prático’, dedico-me com muito prazer à teoria (...) Aquilo a que se refere teoricamente e que com o tempo se compreende e do qual se apodera vem naturalmente aplicado (de forma inconsciente) nos trabalhos futuros.”
Mas em que medida teoria e prática podem concorrer para um único norte?  Ou melhor, quanto mais distante do Academicismo, mais próximo de uma evolução artística?  Existe evolução artística cronológica na história da arte?
O Academicismo, hoje em dia, ainda é, e foi até mesmo durante o século XX, fundamental e permanente na atuação artística. Podemos verificar isso ao ver que a ideia de que a instrução na teoria da arte na formação de um artista continua sendo utilizada e, talvez, supere as ideias antigas a esse respeito. O currículo universitário moderno oferece aos estudantes uma vasta gama de recursos teóricos e os prepara especificamente para o manejo da palavra e da ideia para articulação, justificação e divulgação do seu trabalho prático, incluindo uma série de disciplinas que os primeiros acadêmicos jamais imaginariam incluir ou sequer vir a existir, como a psicologia, sociologia, antropologia, semiótica e computação.  Além disso e contra o argumento de que a vida estudantil é uma e a vida de carreira profissional é outra, toda a vasta produção textual sobre arte enfatiza a necessidade de preparo intelectual do praticante.  Também nenhum crítico de arte sério, hoje em dia, nega a importância do exemplo de uma dinastia recente de modelos consagrados como Picasso, De Kooning, Warhol e Beuys que serviram e servem de inspiração para muitos outros artistas.
É claro que a influência das Academias de arte e do aprendizado formal diminuiu muito e podemos ver, com frequência, um grande número de artistas auto-didatas com papel de destaque nas artes e com a liberdade e a originalidade como vertentes próprias das suas práticas, oriundas justamente de sua formação fora dos cânones ou fora da guia de professores de arte, de acordo com as próprias palavras desses mesmos artistas.
Historicamente, no Brasil, a estreita ligação da arte acadêmica com o poder constituído trouxe o academicismo nacional a um parâmetro de ato político, como um laboratório para a formulação de importantes símbolos da identidade nacional e uma vitrine para a sua divulgação.  Essa arte, além de patentear a ilustração das elites e auxiliar na educação do povo, funcionava como um instrumento ideológico e um cartão de visitas para a inserção do Brasil numa ordem capitalista internacional.  Pouco ou nada isso mudou ao longo do tempo, sendo que a ascensão do modernismo jogou na obscuridade os praticantes do antigo academicismo por volta de 1950, mas o caráter reacionário e elitista, perdura em muitos níveis, até os nossos dias.
A independência da arte e do artista seriam conseguidos quando a obra artística se distancia da propaganda?  Alcançar significância social e desenvolver o componente estético podem coexistir na obra de arte?  De que modo o artista realmente independente deve se portar com relação a subsídios governamentais e com a mídia em geral para que seu papel seja relevante enquanto figura pública e enquanto artista que deixa uma obra para a posteridade?
Essas questões fazem parte de um todo e só podem ser analisadas e respondidas – se é que existem respostas – se considerarmos a multiplicidade, a organicidade e a amplitude das artes contemporâneas que se caracterizam também por uma sintonia fina com a imaginação criadora, os movimentos sociais e a cultura e o conhecimento transdisciplinar.

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)

domingo, 11 de outubro de 2015

Hildebrando de Castro

Leia o novo texto da minha Coluna no Divulga Escritor:


Hildebrando de Castro


Hildebrando de Castro nasceu em Olinda em 1957. Como toda criança, desenhava, rabiscava em bloco, em qualquer papel.  Autodidata, trabalhou como artista gráfico.  Alcançou um nível de excelência na pintura em pastel, técnica não muito usual atualmente, mas em que  Hildebrando tornou-se mestre. Visto que sua visão da história da arte não é cronológica nem progressista e que, fazer arte para ele está muito ligado ao prazer, o artista foi aperfeiçoando a técnica, explorando questões internas do seu próprio trabalho.  No final de 1999 e começo de 2000 voltou-se para a pintura à óleo, mas sem os resultados do pastel.  Até que em 2001 encontrou-se com o óleo, alcançando a mesma magnitude do trabalho com a técnica antiga. Posteriormente, passou da pintura para a produção de objetos.
O artista pinta o que o interessa e quando vê o tema esgotado, passa para outro assunto.  Sua obra é essencialmente narrativa, mas as histórias que conta não são do domínio da realidade, são antes, um mundo paralelo que Hildebrando enxerga colado ao real.
Na série Histórias Insólitas, o grande mestre retrata acidentes que desencadeiam histórias, como o tornado do Mágico de Oz, o incêndio na floresta de Bambi, um tsunami que empurra um transatlântico.  Pintadas à óleo, as peças, em dimensões mínimas, são reunidas como histórias em quadrinhos.
Em outra série, Arquitetura da Luz, o artista aborda os jogos de luz e sombra criados nos brise-solei dos prédios da cidade de Brasília.  A beleza das imagens resulta em peças de arte quase concretistas que desafiam o olhar.
Entes humanos é uma série composta por trabalhos com seres fantásticos criados pelo artista a partir de pessoas reais retratadas em cores quentes e cenários oníricos.
Em Inquieto Coração, Hildebrando enfoca vísceras cruas como se fossem símbolos; fazendo corações pulsarem, dando movimento à imagem estática.
Corpos Fragmentados evocam a nossa condição animal, sempre esquecida e negada, com braços e  pernas exangues, cortados como postas de açougue.
Já na série Infância Perversa, o artista retrata o universo infantil com humor negro, colocando a crueldade e a falsa ingenuidade dos brinquedos, grande parte, cada vez mais erotizados.
Segundo Marcus de Lontra Costa: “Hildebrando de Castro é um repórter da visualidade, um atento observador das formas e cores do mundo.  A sua capacidade técnica inegável está sempre a serviço de uma precisa e contundente análise sobre a vida e seus paradoxos, sobre os limites delicados entre o fantástico e o real; fiel ao espírito da contemporaneidade ele é um artista das frestas, das passagens, das coisas do mundo que sugerem leituras diferenciadas, verdades várias, vagas, vastas em seus mistérios, variadas interpretações (...)”
Num abrir e fechar de olhos (ou janelas?), Hildebrando de Castro nos propõe a vida entre uma euforia e uma ressaca; uma consciência de que o decadente pensamento moderno está em seu crepúsculo.  A sensação de que estamos todos sozinhos, de inquietação e do silêncio vazio está presente em sua obra e o artista reflete nosso tempo de um modo que só um criador de arte magnífico e genial poderia fazê-lo.

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)

Pesquisas eletrônicas e bibliográficas:
Para entender a obra de Hildebrando de Castro . Entrevista do artista a Maria Alice Milliet . (São Paulo, dezembro de 2004) http://www.hildebrandodecastro.com.br/Textos_MA.html
Ilusões do Real . Hildebrando de Castro . Catálogo da exposição . Caixa Cultural Rio de Janeiro . 14 de janeiro a 03 de março de 2013
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