terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Por Que um Livro é Recusado?

Todos nós já tivemos nossos textos recusados por uma editora tradicional. É muito bom saber das alternativas práticas oferecidas por uma editora por demanda, mas é claro que todos nós também queríamos que uma grande editora acolhesse nossas obras para enfim podermos contar com uma ampla estratégia de marketing, publicação e distribuição, mesmo com os direitos autorais tão reduzidos.
Eu mesmo tive muitas cartas de recusa. Algumas nem se preocuparam em me responder. Eu até entendo, pelo fato do escritório receber diariamente dezenas de encadernações por correio, além de uma infinidade de arquivos virtuais.
Vamos listar alguns motivos notáveis da editora recusar uma obra. Talvez você se identifique com alguns desses itens:

1- A Editora não pediu nada
Isso acontece constantemente. Existe uma época em que a editora "abre a porteira" para um número limitado de obras e depois se fecha. É o período de análise e filtragem do que recebeu. Fique esperto no momento em que eles pedirem.

2- A Editora não Publica obras de Autores Iniciantes
Observe a linha editorial da sua futura aliada literária. Existem editoras que publicam mais da metade da lista só de publicações estrangeiras. Cuidado também para não mandar um romance para uma editora que somente publica livros técnicos ou religiosos. Além de gafe, demonstra total desconhecimento.

3- O Autor não Obedeceu as Normas da Editora
Se a Editora pedir impresso, mande-o impresso. Se a Editora pedir em arquivo digital em Word, fonte Arial, tamanho 12, numerado, em letras pretas sem negrito, nem itálico, mande-o dessa forma exigida. É nesse momento que a obra passa pela primeira filtragem. E eles descartam sem dó.

4- O Gênero é Chato
Raramente uma editora irá publicar e distribuir um livro de poesias, ou trovas, ou crônicas, ou qualquer texto de ótica mais pessoal do autor. Não que elas sejam ruins, só que elas não têm apelo comercial e são mais adequadas para um lote limitado em um determinado evento restrito.

5- Péssima Apresentação
É o pouco momento que o autor tem para se apresentar junto com o seu texto. Muitos não são práticos nem claros o suficiente no decorrer das linhas, fazendo o editor nem mesmo terminar de ler a carta.
Seja franco e objetivo na sua apresentação e na sinopse da obra. Se ficar fazendo firula de que "a obra vai revolucionar o mercado literário", a carta será picotada.

6- Erros Ortográficos
Isso é terrível, inadmissível e imperdoável! Um escritor é um profissional que trabalha com as palavras. É claro que erros todos nós podemos cometer, assim como um cantor pode desafinar, um desenhista errar um traço ou um músico errar uma nota. Mas preste atenção: Na medida que lemos e escrevemos, ganhamos intimidade com as palavras e com isso, nossos errinhos são quase nulos com o passar da prática.
Muito cuidado para não errar feio na sua primeira impressão.


É claro que não é só isso. Mas esses são os mais destacados. O resto você vai desenvolvendo e também descobrindo nas demais postagens anteriores. Boa sorte!



Leo Vieira

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os pisos de caquinhos vermelhos

Alexandre Martins

Em São Gonçalo, como na maioria das cidades do Sudeste brasileiro, há ainda vestígios de assoalhos e pisos de lajotas vermelhas em residências, quintais ou áreas de serviço, dispostas aleatóriamente ou formando desenhos geométricos.

Por ter sido nossa cidade um campo de olarias e cerâmicas desde séculos passados, alguns podem pensar que a idéia é natural de nossa região, mas não é bem assim.

A história vêm do estado de São Paulo, influenciando várias cidades do Brasil. Eis o artigo de um engenheiro sobre o assunto.


O mistério do marketing das lajotas quebradas

por Manoel Botelho*

Pode algo quebrado valer mais que a peça inteira? Aparentemente não. Mas no Brasil já aconteceu isto, talvez pela primeira vez na história da humanidade. Vamos contar esse mistério. 
Foi na década de 40 / 50 do século passado. Voltemos a esse tempo. A cidade de São Paulo era servida por duas indústrias cerâmicas principais. Um dos produtos dessas cerâmicas era um tipo de lajota cerâmica quadrada (algo como 20x20cm) composta por quatro quadrados iguais. Essas lajotas eram produzidas nas cores vermelha (a mais comum e mais barata), amarela e preta. Era usada para piso de residências de classe média ou comércio. 
Foto Mika Lins
No processo industrial da época, sem maiores preocupações com qualidade, aconteciam muitas quebras e esse material quebrado sem interesse econômico era juntado e enterrado em grandes buracos. 
Nessa época os chamados "lotes operários" na Grande São Paulo eram de 10x30m ou no mínimo 8x25m, ou seja, eram lotes com área para jardim e quintal, jardins e quintais revestidos até então com cimentado, com sua monótona cor cinza. Mas os operários não tinham dinheiro para comprar lajotas cerâmicas que eles mesmo produziam e com isso cimentar era a regra. 
 Certo dia, um dos empregados de uma das cerâmicas e que estava terminando sua casa não tinha dinheiro para comprar o cimento para cimentar todo o seu terreno e lembrou do refugo da fábrica, caminhões e caminhões por dia que levavam esse refugo para ser enterrado num terreno abandonado perto da fábrica. O empregado pediu que ele pudesse recolher parte do refugo e usar na pavimentação do terreno de sua nova casa. Claro que a cerâmica topou na hora e ainda deu o transporte de graça pois com o uso do refugo deixava de gastar dinheiro com a disposição.

Agora a história começa a mudar por uma coisa linda que se chama arte. A maior parte do refugo recebida pelo empregado era de cacos cerâmicos vermelhos mas havia cacos amarelos e pretos também. O operário ao assentar os cacos cerâmicos fez inserir aqui e ali cacos pretos e amarelos quebrando a monotonia do vermelho contínuo. É, a entrada da casa do simples operário ficou bonitinha e gerou comentários dos vizinhos também trabalhadores da fábrica. Ai o assunto pegou fogo e todos começaram a pedir caquinhos o que a cerâmica adorou pois parte, pequena é verdade, do seu refugo começou a ter uso e sua disposição ser menos onerosa.
Mas o belo é contagiante e a solução começou a virar moda em geral e até jornais noticiavam a nova mania paulistana. A classe média adotou a solução do caquinho cerâmico vermelho com inclusões pretas e amarelas. Como a procura começou a crescer a diretoria comercial de uma das cerâmicas descobriu ali uma fonte de renda e passou a vender, a preços módicos é claro pois refugo é refugo, os cacos cerâmicos. O preço do metro quadrado do caquinho cerâmico era da ordem de 30% do caco integro (caco de boa família).

Até aqui esta historieta é racional e lógica pois refugo é refugo e material principal é material principal. Mas não contaram isso para os paulistanos e a onda do caquinho cerâmico cresceu e cresceu e cresceu e , acreditem quem quiser, começou a faltar caquinho cerâmico que começou a ser tão valioso como a peça integra e impoluta. Ah o mercado com suas leis ilógicas mas implacáveis.

Aconteceu o inacreditável. Na falta de caco as peças inteiras começaram a ser quebradas pela própria cerâmica. E é claro que os caquinhos subiram de preço ou seja o metro quadrado do refugo era mais caro que o metro quadrado da peça inteira… A desculpa para o irracional (!) era o custo industrial da operação de quebra, embora ninguém tenha descontado desse custo a perda industrial que gerara o problema ou melhor que gerara a febre do caquinho cerâmico.

De um produto economicamente negativo passou a um produto sem valor comercial a um produto com algum valor comercial até ao refugo valer mais que o produto original de boa família…

A história termina nos anos sessenta com o surgimento dos prédios em condomínio e a classe média que usava esse caquinho foi para esses prédios e a classe mais simples ou passou a ter lotes menores (4 x15m) ou foram morar em favelas.

São histórias da vida que precisam ser contadas para no mínimo se dizer:
– A arte cria o belo, e o marketing tenta explicar o mistério da peça quebrada valer mais que a peça inteira…

* Engenheiro Civil e autor da coleção CONCRETO ARMADO EU TE AMO
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