sábado, 16 de julho de 2016

Identidades irreconhecíveis

Leia o novo texto da minha Coluna no Divulga Escritor . Identidades irreconhecíveis . 




Identidades irreconhecíveis


Se eu não me reconheço no outro, no próximo, não me reconheço na minha própria pessoa também.  Partindo dessa premissa, podemos colocar alguns pontos de concordância e divergência quanto a esse “reconhecimento”.
Quando um estrangeiro vem nos interpelar a respeito de uma característica cultural ou linguística específica inexistente em sua própria língua ou cultura, precisamos nos utilizar de aproximações.  Se a palavra “saudade” não existe em língua inglesa, usamos algo próximo a “I miss you”, Te perdi ou “homesickness”, nostalgia.  Ambas as expressões são toscas nesse sentido, dirão muitos e, não correspondem à realidade da nossa “saudade” nem dão conta do que ela seja.  Mas é um começo...
Assim também ocorre quando estamos num abismo social entre uma classe e outra do nosso abrangente e amplo espectro nacional.  Para alguém inserido num contexto de violência extremada cotidianamente – numa favela dominada pelo tráfico de drogas, por exemplo – falar em momento de descontração não é a mesma coisa que falar dessa “descontração” para alguém num contexto de vida dito pequeno-burguês de classe média alta – num apartamento de condomínio fechado, por exemplo.  Para a primeira pessoa a descontração ou tranquilidade pode vir com uma catarse; num baile funk ou ouvindo um rap, ou ainda numa alegria momentânea do gol em estádio de jogo de futebol.  Para a segunda pessoa a descontração ou tranquilidade pode vir na audição de uma rádio que transmita música clássica – são poucas hoje em dia – ou mesmo nas práticas de yoga ou meditação.  Não vai aí nenhum juízo de valor.  Ocorre que são momentos distintos, nenhum melhor nem pior do que o outro, mas são distintos.
A catarse exigida para uma vida dedicada a uma atividade intelectual e com relativa baixa taxa de stress oriunda de violência física imediata é uma.  E a catarse requerida por uma vida pautada em regras rígidas de controle necessárias ao trabalho repetitivo e alienante e a uma exposição à violência física imediata todo dia, ininterruptamente, é outra.
Em geral, a violência que vivemos é “democrática”.  Hoje em dia, todos temos que conviver com esse cenário de terror de um modo ou de outro, nas grandes cidades, periferias ou regiões adjacentes aos grandes centros.  Mas há algo que nos une, além da violência, aspecto negativo por excelência.  A nossa humanidade, aspecto positivo por excelência.  Somos humanos e vivemos, melhor ou pior, da forma que podemos, em nosso cotidiano, absorvendo ou rejeitando os problemas que nos são apresentados.  Resolvendo ou deixando em aberto nossas diferenças, diversidades, o certo é que mais cedo ou mais tarde, tais “diferenças”, “diversidades” ou como queiramos chamar o abismo social que cria tantas especulações nas ciências sociais e filosofia desde Émile Durkheim até Zigmunt Bauman e até muito antes, com Platão e Confúcio, irão nos tornar presa fácil dos totalitarismos e fascismos de ideologias repressivas quando baixarmos a guarda da eterna vigilância que é o preço da liberdade, como já foi dito um sem número de vezes.
Estejamos seguros e fortes tanto para salvaguardar nossas individualidades quanto para ampliar nosso entendimento e compreensão do outro, do próximo.  Só assim poderemos garantir liberdades, autonomias e identidades próprias de um povo que vive a democracia.  Paz e luz.

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)



Leia mais: http://www.divulgaescritor.com/products/identidades-irreconheciveis-por-mauricio-duarte/

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Meu Patrono Visto por Mim

Academia Virtual de Letras
Patrono: Paulo Coelho
Acadêmico: Mauricio Duarte
Cadeira: 18



Meu Patrono Visto por Mim


Nesse texto pretendo frisar os livros de Paulo Coelho que mais me marcaram através de rápidas observações que pontuo.  São eles:
. O Monte Cinco
. Veronika decide morrer
. Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei
. O vencedor está só

O Monte Cinco é quase um relato bíblico e me recordo que comecei a lê-lo ao mesmo tempo em que lia também, o Evangelho Segundo Jesus Cristo do Saramago.  Como eu consegui conciliar as duas leituras não me lembro.  O livro me trouxe em detalhes à época do Profeta Elias e sua vida em torno do Divino Pai, do Divino Filho e do Divino Espírito Santo.  Para uma boa Lectio Divina (leitura orante da Bíblia) nada melhor do que essa história; fora isso, trata-se de uma grande narrativa, lindamente contada.

Veronika decide morrer narra as desventuras de uma moça que tenta o suicídio e é internada numa clínica psiquiátrica por causa disso.  Um livro muito intrigante que eu adorei, apesar de mexer um bocado comigo.  Sinto como se fosse hoje, mesmo tendo passado muito tempo de o ter lido, o frio na barriga cada vez que eu retomava a leitura.  Como em todos, ou na maioria dos seus livros, o autor traça inúmeras passagens espiritualistas ou de espiritualidade ao longo da trama.

Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei é sobre a aventura amorosa de um devoto católico que está prestes a se ordenar padre na igreja católica e uma moça que o encontra na Europa depois de anos sem se verem.  Os dois se apaixonam e ambos terão que fazer escolhas cruciais em suas vidas.  Quando li esse livro pela  primeira vez foi um exemplar emprestado da minha mãe e eu lembro que me impressionou muito a linguagem simples e direta que caracteriza o texto do Paulo Coelho.

O vencedor está só narra a saga de um dia no show bussiness e nos grandes negócios das elites em Cannes, onde top models, candidatas a atrizes, atrizes de verdade, atores famosos e atores nem tão famosos, empresários, estilistas e um assassino em série estão presentes num thriller de muita emoção, mas de contemplação espiritual também, como não poderia deixar de ser em se tratando de uma obra de Paulo Coelho.  Quando li o livro que ganhei de presente dos meus pais, num aniversário meu, senti a mesma sensação gostosa da leitura rápida e fluída pela cabeça, enquanto eu lia O Alquimista, muitos anos antes.

Deixo o link do vídeo em que o autor descreve momentos de criação e como eles ocorrem na vida de um escritor.  O vídeo está em inglês.  https://youtu.be/vKBOKLF3Ul8
Observação: Esse vídeo é disponibilizado no blog oficial do autor: http://paulocoelhoblog.com/

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Por que a Flip está mais chata do que cagar de terno?





A
última mesa da FLIP, a Feira Literária de Paraty, terminou com gritos
de “Fora Temer”. A notícia pode ser encontrada reverberada rapidamente
no Google em jornais de esquerda como El País, Folha, Brasil 247, Fórum e Agência Petroleira de Notícias (sic).

Em se tratando de notas sobre
literatura, é necessário pedir escusas pela obviedade literária que vai
acima. Falando de escritores (ou da classe artística, letrada ou
intelectual brasileira), é redudante, tautológico e pleonásmico afirmar
que mais de um deles freqüentou o mesmo ambiente e começou a gritar
babuinamente: “Fora Temer! Fora Temer!”
Qualquer um no país hoje sabe que se
dois jornalistas forem ao banheiro juntos, em 2 minutos estarão
gritando: “Fora Temer!”. Se mais de dois músicos se juntarem para fazer
uma jam, depois do segundo acorde já virá um “Fora Temer”. Se
um painel com dois escritores para comentar a conjuntura política
nacional for feito no Rio Grande do Sul ou no Acre, o resultado será
pouco mais do que berros histéricos de “Fora Temer!”. Se for na FLIP,
que deveria reunir os maiores escritores do mundo, o resultado só será
diferente por toda a rouanetosfera esperar Karl Ove
Knausgård terminar sua apresentação para iniciar o “Fora Temer! Fora
Temer! Fora Temer! Fora Temer! Fora Temer! Fora Temer! Fora Temer!”
A maldição de nossa época é a própria
crença de que nossa época é algo a ser louvado por si, uma época das
épocas, a super-época – finalmente estaríamos “na nossa época”, como se
fosse melhor do que todas as outras épocas. É o credo chamado modernismo,
ideologia que chama tudo o que não seja ela própria de ideologia. A
superioridade da moda sobre a tradição, a glorificação do que está vivo
como elevado a tudo aquilo que mereceu luto por ter morrido.
Uma das marcas do modernismo no Brasil,
com todos os defeitos do modernismo, besuntado em caipirismo e
macaqueação barata, foi o poema Poética, de Manuel Bandeira, que versa:
Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Qualquer brasileiro já foi julgado,
condenado e torturado pelo crime de ser brasileiro a ler estas
malfadadas na escola para entender o que é modernismo (não vai muito
além disso). A seita modernista, “antropofágica”, umbigocêntrica e
masturbatória como sói, acabou devorando-se a si própria: hoje, ali na
FLIP 2016, é o lirismo funcionário público com livro de ponto espediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Ou, no caso, à sra.
Dilma Vana Rousseff e sua capacidade de dar lei Rouanet pra quem não
venderia livro nem com miçanga grátis em feira hippie.
flip-foratemer 

Pedindo novamente escusas, não averiguei se os escritores (nem averiguei quem são
os escritores) vociferando “Fora Temer!” na FLIP apóiam a Lei Rouanet.
Mas aposto que, perguntados sobre a crise desgraçada da literatura
brasileira, que não produz mais um escritor digno de um
Guimarães Rosa ou Lima Barreto, obtemperarão de pronto: “Quêêê?
Maaaagina que a literatura brasileira tá uma porra, nós somos excelentes, mas se a literatura,
e não nós, escritores que a produzem, está pior do que encoxar a mãe no
tanque, tudo o que precisa é entupir o rabo dos escritores de Lei
Rouanet para fomentar a cultura, amém, Dilma, afinal, se os
leitores não lêem nossos livros, que são perfeitos, pra ficar chuchu
beleza só precisa é o governo obrigá-los a pagar nossa vida de luxo
burguês pra gente poder morar no Leblon e passar férias em Paris sem
precisar vender livro, que aí a literatura estará salva!”.
Alguém aí aposta 2 reais contra?

Literatura política

Tem alguma coisa mais cacete do que política? Não inventaram a literatura para estarmos num nível mais alto, que engloba
a política e a explica sob auspícios de uma visão maior, ao invés de
deixar que as bajulações e lambeção de bolas oficiais determinem nossa
metafísica?
Como já bem observou Olavo de Carvalho,
talvez o Brasil seja o único país do mundo cuja literatura não reflete
nada da realidade do país. Qualquer país subdesenvolvido na África, Ásia
ou Oriente Médio tem mais chance de Nobel por ter uma literatura que
reflita os problemas atuais das pessoas, da crise moral ao terrorismo.
Bola de feno passando na FLIP.
No Bananão, toda a literatura está até
hoje falando da ditadura militar, com personagens mais rasos do que
carcaça de planária. Nenhum personagem com conflito interno: a feminista
desiludida, o esquerdista buscando novos conceitos depois da corrupção
do PT, o pobre cuja vida não consiga ser explicada pela sociologia de
Vila Madalena.
A política reflete uma realidade: apesar de criar novos fatos a partir disso, torna-se mero esquematismo e flatus vocis se tenta criar fatos nihil ad rem. E hoje escritor faz política, e não literatura.
filme-lula-preso 
As
grandes obras literárias apreciadas pela bolha flipista são como novela
da Globo: se o mocinho progressista não vencer as trevas representadas
por sua avó e o tripé mulher-negro-homossexual não passar pela Jornada do Herói
de vítima social a reconhecido pela elite, o livro imediatamente é
tachado de machista, racista e homofóbico, concluindo-se, portanto, que é
fascista.
Os maiores escritores do Brasil a
fazerem literatura, e não pastiche de propaganda do PT com norte moral
de Globo News e Folha de S. Paulo, como Alexandre Soares SilvaKarleno Bocarro ou Rodrigo Duarte Garcia
foram convidados pela FLIP? Ou só vale a cabala das “causas sociais” e
pobre-feminismo-ditadura que substituiu a fase em que literatura
brasileira só falava de mato, sertão e índio?
Críticos literários brilhantes como Rodrigo Gurgel ou Martim Vasques da Cunha são chamados a fazer crítica literária, ou só vale a troca de afagos entre confrades da camarilha? Tem alguma coisa a ser defendida na literatura brasileira que mereça aplausos numa FLIP sem ser por política e amizade com os poderosos da indústria cultural nacional – e, via de regra, estatal?
Quando o editor da Record, maior editora
do Brasil, Carlos Andreazza, comentou que seus escritores eram
boicotados pela FLIP, a direção da festa literária acusou-o de
corporativismo. Para quem é corporativista, só se pode pensar por esta
clave: crer que os outros é que querem usar o poder de monopólio para
defender sua claque, quando apenas a própria FLIP faz isso e o que
Carlos Andreazza achava mais interessante era justamente o contrário:
ter várias idéias, e não uma só.
Tudo no país se tornou puxadinho do PT. A FLIP não seria exceção.

Ficção e realidade

Há, claro, uma explicação simples para
um país continental desinteressar-se quase de todo pela literatura, com
todos os pensantes e falantes da nação preferindo os jornais e o
noticiário a tentar encarar meia hora de um romance brasileiro.
Vejamos o caso da ararinha, que Fábio Pegrucci narrou com presteza:
ariranha
Em 1977, num episódio que marcou a
história de Brasília, um menino de 13 anos caiu no recinto das ariranhas
no jardim zoológico da cidade, sendo imediatamente atacado pelos
animais que, pra quem não sabe, são ferocíssimos.
Um militar, de nome Sílvio Hollenbach,
que passeava por ali com a família, ao ouvir os gritos por socorro,
pulou no fosso e salvou o garoto; contudo, foi puxado por uma perna por
um dos animais, sendo em seguida atacado por vários deles, até que
funcionários do zoológico finalmente chegassem para resgatá-lo.
O garoto foi hospitalizado e recebeu
alta em poucos dias. Porém, lacerado por mais de cem mordidas, Sílvio
Hollenbach morreu por infecção generalizada, três dias depois.
“Tenente Sílvio Delmar Hollenbach” hoje é
o nome oficial do Jardim Zoológico de Brasília, em homenagem ao herói; é
nome de ruas e escolas em várias cidades; também dá nome ao auditório
do Hospital das Forças Armadas de Brasília, onde o militar servia à
época.
Adilson Florêncio da Costa é o nome do
menino salvo por Sílvio; hoje, trinta e nove anos depois, Adilson foi
preso pela Polícia Federal.
Ex-diretor do Postalis – o fundo de
pensão dos funcionários dos Correios -, Adilson é acusado no
envolvimento em fraudes que resultaram em prejuízos de 90 milhões ao
fundo, numa intrincada tramoia que inclui a criação de uma empresa de
fachada destinada a assumir o controle de universidades falidas para,
através delas, captar recursos para supostamente recuperar as
instituições de ensino.
Segundo investigações da PF (deem um
Google e vocês, se tiverem curiosidade e paciência, vão entender), o
fundo Postalis, e também o fundo Petros, da Petrobras, foram os únicos
que investiram pesadamente o dinheiro da aposentadoria de seus
funcionários em títulos emitidos pela empresa gestora das universidades –
e (surpresa!) o dinheiro sumiu, as universidades faliram, o preju ficou
todo com os funcionários das estatais.
Ainda segundo investigações, os
destinatários principais da rapinagem seriam o senador Renan Calheiros
(PMDB – AL), a campanha derrotada ao governo do Estado do Rio de Janeiro
de Lindbergh Farias (PT – RJ) e o ex-sindicalista, ex-ministro de Dilma
Rousseff e deputado federal Luiz Sérgio (PT – RJ).
A PF come pelas beiradas, enquadrando
primeiro os bandidinhos pé-rapados, porque os bandidões – pra variar –
têm foro privilegiado. Mas, em breve, tudo isso vai estar nas manchetes
dos principais jornais.
É uma PUTA história, que começa com ariranhas enfurecidas e termina com ladrões de aposentadorias presos: merece um filme!
Ah, a propósito: a família do herói Sílvio Demar Holenbach aguarda há 33 anos por um singelo “obrigado” da família do então menino Adilson Florêncio da Costa.
Tem como alguma ficção romanceada dos escritorezinhos brasileiros concorrer com histórias como essa?
Convenhamos: a Lava Jato vale mais do
que muita série hollywoodiana (House of Cards?! Puff!!), um Eduardo
Cunha, um Jair Bolsonaro, uma Sara Winter, um José Dirceu são
personagens muito mais ricos e complexos do que 99% dos personagens de
toda a nossa literatura.
Que dirá a concorrência com os
“livros-reportagens” de jornalistas da Folha “debatendo” entre a Ave
Maria e o amém na FLIP, com seus relatos de viagens pela Síria, para
mostrar que não entendem lhufas do conflito, mas vêem um monte de gente
pobre matando outro monte de gente pobre e passam a escrever sobre como é
tudo “muito mais complexo do que dizem por aí” e ganham resenhas de
seus cupinchas no caderno de Cultura afirmando que “o livro levanta mais
dúvidas a cada página” já que até na análise da realidade os escritores
brasileiros não consegue sair de si mesmo.
Alguma chance de isso tudo ser minimamente mais emocionante, interessante agradável do
que o próprio movimento de xadrez do juiz Sérgio Moro? Do que o jogo de
delator delatando que quem ainda não foi preso comprou o silêncio para
não delatar quem poderia delatar ainda mais? Das notícias em moto perpetuo de
que homem de cabelo branco penteado para trás acusou outro homem de
cabelo branco penteado para trás de corrupção e afiançou que ele próprio
é inocente? Do que o chorume da feminista famosinha graças à Globo
promovendo feminismo xingando a Globo de golpista fascista? Como um
grupo de escritores gritando “Fora Temer” na FLIP quer ser mais lido do
que alguém que, digamos, escreva ou faça algo com mais do que 5
palavras-clichês?
O Brasil, definitivamente, não é pra principiantes e amadores.






Por que a Flip está mais chata do que cagar de terno? – Senso Incomum






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