sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Coluna Visuális - Revista Sinestesia

Visite a Revista Sinestesia e leia a minha Coluna Visuális que está estreando: 




Isabela - Aquarela da Artista Maria Cecilia Camargo
que tem o trabalho artístico enfocado na Coluna.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

As 20 principais regras para escrever, segundo Stephen King

Seja você um fã
inveterado ou não da obra do escritor Stephen King, o fato é que o
americano é um dos mais prolíficos, importantes e bem sucedidos autores
de todos os tempos. Com mais de 50 romances, 6 livros de não-ficção,
mais de 200 contos, mais de 60 filmes adaptados a partir de suas
histórias (tendo vendido ao todo mais de 350 milhões de livros), Stephen
King entende uma coisa ou outra sobre escrever.
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Nesse mar de publicações, entre clássicos como Carie, a Estranha, O Iluminado, Um Sonho de Liberdade, It – A Coisa, Conta Comigo e À Espera de um Milagre, entre muitos outros, um dos mais interessantes livros de King é justamente Sobre a escrita (On Writing), uma espécie de memória profissional e manual do escritor, publicado em 2000.
Dele foi possível retirar 20 regras
máximas seguidas por King, que se aplicam não só aos que desejam se
tornar escritores, mas também a vida de qualquer um. Aqui vão elas, nas
palavras do próprio autor:
  1. Primeiro escreva pra você, depois se preocupe com o público
“Quando você escreve uma história, você
está contando essa história pra você. Quando você a reescreve, sua
principal tarefa é jogar fora tudo que não for a história”.
  1. Não use a voz passiva
“Escritores tímidos gostam da voz
passiva pelo mesmo motivo que amantes tímidos gostam de parceiros
passivos. A voz passiva é segura. O tímido escreve ‘a reunião acontecerá
às sete horas’, porque isso de alguma forma isso lhe diz, ‘Coloque
dessa forma e as pessoas acreditarão que você realmente sabe’. Coloque
os ombros pra trás, levante o queixo, e faça essa reunião acontecer!
Escreva ‘a reunião é às sete’. Pronto! Não se sente melhor?”
  1. Evite advérbios
“O advérbio não é seu amigo. Considere a
frase ‘Ele fechou a porta firmemente’. Não é de forma alguma uma frase
horrível, me questione a você mesmo se ‘firmemente’ realmente precisa
estar lá. E o contexto? E toda a inspiradora (pra não dizer
emocionalmente tocante) prosa que veio antes da frase? Não seria isso
que deveria nos dizer de que forma ele fechou a porta? E se a prosa
precedente realmente diz, não seria ‘firmemente’ uma palavra sobrando?
Não seria redundante?”
Writer - Scrittore
  1. Evite advérbios, especialmente depois de ‘Ele disse’ e ‘Ela disse’
“Enquanto escrever advérbios é humano, escrever ‘ele disse’ e ‘ela disse’ é divino”
  1. Mas não fique obcecado pela perfeição gramatical
“A linguagem não precisa sempre usar
gravata e sapatos amarrados. O objeto da ficção não é a correção
gramatical, mas sim fazer o leitor se sentir bem vindo e contar uma
história. Fazer ele ou ela esquecer, sempre que possível, que ele ou ela
estão lendo uma história”.
Cena do filme 'O Iluminado' Cena do filme ‘O Iluminado’


  1. A mágica está em você
“Estou convencido de que o medo é a raiz
da maior parte das escritas ruins. Dumbo conseguiu voar com a ajuda de
uma pena mágica; você pode sentir o desejo de usar um verbo passivo ou
um desses péssimos advérbios pelo mesmo motivo. Antes de faze-lo apenas
se lembre que o Dumbo não precisava da pena; a mágica estava nele.”
  1. Leia, leia, leia
“Você precisa ler amplamente, refinando e
redefinindo constantemente seu próprio trabalho enquanto o faz. Se você
não tem tempo para ler, você não tem tempo (ou as ferramentas) para
escrever.”
Cena do filme 'Conta Comigo' Cena do filme ‘Conta Comigo’


  1. Não se preocupe em fazer outras pessoas felizes
“Ler durante refeições é considerado
grosseria em sociedades educadas, mas se você pretende ser bem sucedido
como escritor, grosseria deve ser sua penúltima preocupação. A última
deve ser uma sociedade educada e o que ela espera. Se você pretende
escrever tão verdadeiramente quanto pode, seu dias como membro de uma
sociedade estão contados, de todo jeito.”
  1. Desligue a TV
“A maioria dos recintos são equipadas
com TV, mas a TV – enquanto se está escrevendo ou em qualquer outro
lugar – é realmente a última coisa que um escritor precisa. Se você
sente que precisa de um analista político falando com você enquanto
escreve, ou um economista ou um comentarista esportivo, então é hora de
se questionar sobre o quão sério é seu desejo de escrever. Você tem de
estar preparado para se atirar seriamente na interioridade, na direção
do mundo da imaginação. E isso quer dizer que os apresentadores de TV
precisam ir embora. Ler nos toma tempo, e a TV rouba muito desse tempo.”
Cena do filme 'Carrie, a estranha' Cena do filme ‘Carrie, a estranha’


  1. Você só tem três meses
“A primeira versão de um livro – mesmo
um livro longo – não deve demorar mais de três meses para ser escrita,
que é a duração de uma estação do ano.”
  1. Existem dois segredos para o sucesso
“Quando me perguntam pelo ‘segredo do
meu sucesso’ (uma ideia absurda, mas impossível de ser abandonada), eu
às vezes digo que são dois: permanecer fisicamente saudável, e
permanecer casado. É uma boa resposta porque faz a pergunta original
desaparecer, e porque há certo elemento de verdade nela. A combinação de
um corpo saudável e uma relação estável com uma mulher autoconfiante
que não tolera besteiras nem minhas nem de ninguém fez a continuidade do
meu trabalho possível. E eu acredito que a recíproca é verdadeira: que
minha escrita e o prazer que sinto contribuíram para a estabilidade da
minha saúde e da minha vida em casa.”
  1. Escreva uma palavra de cada vez
“Um apresentador uma vez me perguntou
como eu escrevo. Minha resposta – ‘uma palavra de cada vez’ – o deixou
sem resposta. Acho que ele não soube dizer se era ou não uma piada. Não
era. No fim, é simples assim. Seja uma página simples ou uma trilogia
época como ‘O Senhor dos Anéis’, o trabalho é sempre realizado uma
palavra de cada vez”.
Cena do filme 'Louca Obsessão' Cena do filme ‘Louca Obsessão’


  1. Elimine as distrações
“Não deve haver telefone no seu local de
escrita, certamente não deve haver TV ou videogame pra você se
distrair. Se tiver uma janela, feche as cortinas”.
  1. Atenha-se ao seu estilo
“Ninguém pode imitar a maneira peculiar
de um autor de se aproximar de determinado gênero, ainda que possa
parecer a coisa mais simples. Pessoas que decidem fazer fortuna
escrevendo como outro autor não produzem nada além de imitações pálidas,
em sua maioria, porque vocabulário não é a mesma coisa que o sentimento
e a verdade compreendida pelo coração e pela mente.”
  1. Procure
“Em uma entrevista eu disse que
histórias são como coisas encontradas, como fósseis enterrados no chão, e
o entrevistador disse que não acreditava em mim. Eu disse que tudo bem,
contanto que ele acreditasse que eu assim acreditava. E acredito.
Histórias não são como camisetas ou videogames, são como relíquias,
parte de um mundo pré-existente não descoberto. O trabalho do escritor
ou da escritora é usar as ferramentas que possuem em sua caixa de
ferramentas para retira-las tão intactas quanto possível. Às vezes o
fóssil que você encontra é pequeno; uma concha. Às vezes é enorme, um
Tiranossauro Rex com suas costelas gigantes e dentes enormes. De
qualquer forma, contos ou romances de mil páginas, a técnica de
escavação é a mesma.”
Cena do filme 'Um Sonho de Liberdade' Cena do filme ‘Um Sonho de Liberdade’


  1. Dê um tempo
“Se você nunca fez isso antes, ler seu
próprio livro depois de seis semanas de descanso será uma experiência
estranha. É seu, você vai reconhecer como sendo seu, até se lembrará
qual a música que estava tocando quando escreveu certo trecho, e ainda
assim será como ler o trabalho de outra pessoa, um irmão de alma,
talvez. É assim que deve ser, a razão pela qual você deu um tempo. É
sempre mais fácil frustrar os desejos de outra pessoa do que os seus
próprios.”
  1. Deixe de fora as partes chatas e ‘mate suas queridinhas’
“Sempre que penso em ritmo, eu volto a
Elmore Leonard, que explicou isso perfeitamente, dizendo que ele
simplesmente deixava de fora as partes chatas. Isso sugere cortar para
dar velocidade ao ritmo, e é o que a maioria acaba fazendo.”
  1. A pesquisa não pode eclipsar a história
“Se você precisa realizar uma pesquisa
porque partes da sua história lidam com coisas que você sabe pouco ou
nada sabe, lembre-se do termo ‘pano de fundo’. É nele que a pesquisa
deve estar: tão ao fundo ou como pano de fundo da história quanto
possível. Você pode estar arrebatado pelo que aprendeu a respeito da
bactéria carnívora, o sistema de esgotos de Nova Iorque ou a
inteligência dos cachorrinhos Collie, mas seus leitores provavelmente se
importarão mais com seus personagens e sua história.”
Stephen King
  1. Você se torna um escritor simplesmente lendo e escrevendo
“Você não precisa de cursos de escrita
ou seminários mais do que precisa desse ou daquele livro sobre escrita.
Faulkner aprendeu seu estilo enquanto trabalhava nos correios da cidade
de Oxford, no Mississippi. Outros autores aprenderam o básico enquanto
estavam na marinha, trabalhando em fábricas ou na cadeia. Eu aprendi o
mais valioso (e comercial) aspecto do meu trabalho de vida enquanto
lavava lençóis de motel e toalhas de mesa de restaurantes em uma
lavanderia em Bangor. O melhor aprendizado é ler muito e escrever muito,
e as lições mais importantes são as que você ensina a si mesmo.”
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  1. Escrever tem a ver com ficar feliz
“Escrever não tem a ver com ganhar
dinheiro, ficar famoso, conquistar pessoas, transar ou fazer amigos. No
fim, tem a ver com enriquecer a vida dos que lerão seu trabalho, e
enriquecer a própria vida também. Tem a ver com se levantar, ficar bem, e
terminar. Ficar feliz, ok? Escrever é mágico, é a Água da Vida tanto
quanto qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.”
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© fotos: divulgação






As 20 principais regras para escrever, segundo Stephen King







terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Morre aos 93 anos o ator e dublador Telmo de Avelar no Rio de Janeiro



Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

Morreu nesta segunda-feira (9), aos 93 anos, o ator e dublador Telmo Perle Münch, mais conhecido como Telmo de Avelar. Ele estava internado em um hospital na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, por complicações de um câncer de pulmão em estágio avançado.

Nascido em 1923 em Curitiba, capital do Paraná, Telmo de Avelar estava afastado dos palcos e da dublagem e morava há um ano no Retiro dos Artistas, sempre com a família por perto. Ele foi a voz oficial do Pateta no Brasil nos anos 60, 70 e 80 e também dublou Ludovico Von Pato nos desenhos da Disney.

Outros personagens de Telmo em mais de 50 anos de carreira na dublagem foram o Sr. Olivaras (John Hurt) em "Harry Potter e a Pedra Filosofal" (2001), Sr. Wing (Keye Luke) em "Os Gremlins" (1984), Padre Gionetti (David Bradley) em "Exorcista: o Início" (2004) e Chef Louis em "A Pequena Sereia" (1989).

Reprodução/Facebook/Telmo Perle Munch
O ator e dublador Telmo de Avelar imagem: Reprodução/Facebook/Telmo Perle Munch
Telmo se destacou como diretor e tradutor de séries como "Família Dinossauro" e animações da Disney como "Aladdin", "O Rei Leão", "Mogli, o Menino Lobo", "Dumbo", "Bambi" e "A Pequena Sereia". Em "A Bela e a Fera", as canções adaptadas por ele foram usadas em um musical da Broadway trazido para o Brasil.

Segundo a filha de Telmo, Isabela, ele também adaptou a música "Heigh-Ho", cantada pelos sete anões na animação "Branca de Neve" (1937): "Eu vou, eu vou, para casa agora eu vou...".

"Era uma pessoa muito talentosa e amava o que fazia. Cresci vendo ele compondo as músicas. Traduzia os filmes e se preocupava com as falas em português para não ficar apenas uma tradução, fazia com qualidade", relembra Isabela, filha única do ator, ao UOL.

Na TV, Telmo interpretou Fausto Paiva, técnico do Flamengo, em "Irmãos Coragem" (1970), o fazendeiro Alípio Sá em "Nina" (1977) e o delegado Sandoval em "Pai Herói" (1979), novela reprisada atualmente pelo canal pago Viva. Ele também dirigiu e atuou em radionovelas e peças de teatro.

Telmo de Avelar deixa sua mulher, Tereza, sua filha única, Isabela, e dois netos, Maria Fernanda e João Roberto. Informações sobre velório e enterro serão divulgadas em breve.




Morre aos 93 anos o ator e dublador Telmo de Avelar no Rio de Janeiro - 09/01/2017 - UOL TV e Famosos

A breve vida da página "Armandinho morrendo violentamente"


Falamos com o criador da página que parodiava a famosa tirinha de Alexandre Beck



Armandinho é uma tirinha criada por Alexandre Beck no jornal Diário Catarinense. Você deve conhecer o quadrinho, já são seis coletâneas de tiras editadas e quase 730 mil likes no Facebook. Certo?

Com tamanho alcance, tem quem goste e tem quem deteste o garotinho que sempre tem uma resposta pronta para diversas situações e geralmente sempre se comporta de maneira politicamente correta.

Tom Magalhães, mestrando em Direito pela UFRJ, é da turma que não é muito fã do menino. O que irrita ele nem é o conteúdo das tiras. Em muitas situações, Tom concorda com Armandinho, mas acha o moleque irritante demais desde a primeira vez que o viu.

Por conta disso, decidiu criar a página Armandinho morrendo violentamente para postar paródias onde o menino sempre morre após sua tirada final.

Foto: Reprodução/Facebook

Foto: Reprodução/Facebook
Foto: Reprodução/Facebook

Foto: Reprodução/Facebook

Em menos de dois dias, a página se espalhou rápido e ganhou 6 mil seguidores, chamando atenção de quem entendeu a piada como o criador da página queria e de gente que via na página uma “resposta da direita” para o quadrinho, sempre associado a uma postura progressista e de esquerda. A confusão estava armada.

No pouco tempo que a página existiu, Tom chegou a esclarecer o assunto em um post.

Muita gente tá interpretando essa página como se fosse contra o Armandinho por ele ser “de esquerda” ou “comunista” ou por ser a favor dos direitos humanos, do feminismo, ou o caramba a quatro, e portanto como uma página “de direita”.

A interpretação é livre, e o texto quando cai na rede é peixe, pra ser interpretado da forma que for interpretado.

Mas queria deixar claro que nossa opinião é que essa interpretação é burra, porque o fato de o armandinho ser irritante não tem nada a ver com uma ou outra posição política estar certa ou errada.

Será que interpretar isso aqui como outra pregação, só que de uma ideologia oposta, não é meio babaca?

Mas a brincadeira só acabou quando o próprio autor da tirinha original, Alexandre Beck, apareceu com uma notificação extrajudicial, chegando a falar com Tom por telefone ontem. No mesmo dia, o criador da paródia decidiu tirar a página Armandinho morrendo violentamente do ar.

Em entrevista para o blog, ele explicou a decisão: “O autor me disse, por telefone, que a paródia o tinha incomodado bastante porque expressaria, segundo ele, valores opostos aos do original, e usaria o personagem dele para pregar a violência. Não concordo com essa interpretação, mas também não me sinto confortável de ferir os sentimentos do cara, se a interpretação dele é diferente. Esse é um dos motivos pelos quais já não me senti mais à vontade para seguir administrando a página pessoalmente”.

Na página oficial do Armandinho no Facebook, muita gente foi reclamar da postura de Beck por fazer a notificação extrajudicial. No Twitter, mais pessoas também reclamaram da pressão feita contra a página. Muitos dos órfãos, inclusive, agora estão criando suas próprias paródias, extrapolando de longe a ideia original em alguns casos. Páginas, como a Pentelho.burro, armazenam essa produção.

Para entender todo os detalhes do caso e levantar o debate, conversamos com o autor da paródia. Leia a íntegra. (Procurado pelo blog em seus canais oficiais, o autor Alexandre Beck não deu retorno até a publicação do post).

Brasileiros – Quando e por qual razão você decidiu criar a página, é uma ideia só sua?

Tom Magalhães - Bom, eu tinha a ideia de matar esse personagem, em diferentes graus de consciência, já há algum tempo – provavelmente desde a primeira vez que eu vi a tirinha. A decisão de criar a página é de anteontem, e foi por procrastinação. Estou preparando o material pra minha qualificação de Mestrado (o tema é, veja só, a relação entre direito, linguagem e violência), e acho que queria alguma coisa pra desviar minha atenção de vez em quando.

Mas eu não diria que a ideia é minha, por dois motivos. O primeiro é que, como ficou claro pra mim pela reação do pessoal que curtiu a página, a ideia já estava na cabeça de muita gente. A vontade de que o personagem morresse no final das tirinhas, a imaginação da morte dele, já se faziam presentes pra uma parte dos leitores fortuitos do original — acho que por motivos que se relacionam principalmente a concepções diferentes de humor e de arte, que podem gerar emoções fortes.

Então eu só criei a página, e o fato de ela ter tido tanta adesão me parece ser porque a ideia já estava no “inconsciente coletivo”. Inclusive, tenho que concordar com o que o criador da tirinha me disse, que a página só cresceu tão rápido por causa da fama do personagem, ainda que seja, digamos, a partir do negativo dessa fama. O segundo motivo pelo qual eu não me sinto dono da ideia é que eu não desenho as tirinhas, embora tenha chamado o artista – que até o momento quis permanecer anônimo – e feito a sugestão. Assim, a maioria das decisões específicas sobre a forma como o personagem morre – que incluem as principais decisões estéticas e humorísticas que dão o valor do negócio – são dele.

A ideia, então, não é minha nem numa ponta, nem na outra. Eu só a pus em funcionamento e assumi, assim, a responsabilidade, já que, embora meu nome não aparecesse na página, se o caso fosse levado a juízo seria eu o responsável.

Com a página no ar ainda, muita gente a classificou como humor negro ou mesmo uma página de direita, esse não era bem seu objetivo, certo?

Acho difícil dizer que não seja humor negro quando se trata de rir da morte e da violência. Não tenho nada contra humor negro, embora existam versões nada a ver dele. O pessoal de direita, dessa nova direita burra que infelizmente tá crescendo no país – e que é, inclusive, responsável por boa parte do humor negro nada a ver que tem sido produzido – é que me incomoda. Teve um pessoal que identificava o personagem como “de esquerda” e, só por isso, viu a paródia como passando uma mensagem “de direita”. A interpretação é livre quando o negócio cai na rede, é claro. Mas acho, como interpretação, pouco inteligente.

O personagem é irritante (pra mim, pelo menos) porque passa didaticamente uma mensagem. Daí você vê a paródia como passando didaticamente a mensagem contrária? Por exemplo, de que esquerdistas chatos têm que morrer. Me parece que o cara que interpreta assim não tá entendendo nada. Como disse, inclusive, um dos seguidores da página, eu compartilho a maioria das posições que o personagem expressa. Isso não me impede de querer ver ele morrendo, porque o irritante não é o que ele diz e sim a forma e o momento em que ele o diz. Não tem nada a ver com a mensagem, e inclusive questiona a relação entre humor e mensagem. Acho que foi o Woody Allen que disse algo assim: “Me perguntaram qual a mensagem dos meus filmes; eu disse que fiz um trato com os correios — eles passam as mensagens, eu faço os filmes”.

Acho que o negócio é, então, antes de mais nada fruto de um abismo entre a nossa (minha, de quem curtiu a página) concepção de humor e de arte e a que é assumida pela tirinha parodiada. Não é uma divergência política, a não ser na medida em que concepções de humor e de arte têm consequência política. Eu, particularmente, acho que a função do humor e da arte está em um jogo mais complexo e delicado do que simplesmente transmitir um conteúdo específico. Tem outras formas de usar a linguagem que servem melhor à transmissão de mensagens.

Daí que quem interpreta o negócio como um embate entre coxinhas e petralhas, esses dois lados que, infelizmente, estão tomando e emburrecendo todas as discussões no Brasil, não me parece entender muito de piada nem de arte. Mas não dá pra esperar muito humor e senso estético de quem afina com o Bolsonaro, né?

Você esperava que o autor mandasse tão cedo um pedido para que o trabalho fosse interrompido? O que você achou dessa atitude?

Queria esclarecer que, no fim das contas, o autor disse que nunca tinha tido a intenção de acionar a justiça nem de tirar a página de circulação, embora a primeira mensagem que ele me mandou dissesse “aguardo imediata retirada de todo trabalho de minha autoria […] ou irei acionar os meios cabíveis para os devidos reparos financeiros”. Inicialmente, nem pensei que a coisa fosse crescer ao ponto de ele entrar em contato conosco, ao ponto de envolver a pessoa dele, pra além da tirinha, pessoalmente. E, mesmo que fosse o caso, achei que ele deixaria rolar, por vários motivos.

Primeiro porque esse negócio de paródia, remix, etc., para mim hoje já é lugar comum. Depois porque as tirinhas do cara expressam bem diretamente uma visão progressista, de tolerância e que costuma, no espectro político, vir acompanhada de uma liberação maior desse tipo de prática, até de um certo entusiasmo diante das possibilidades recombinatórias da rede livre.

Mas o autor me disse, por telefone, que a paródia o tinha incomodado bastante porque expressaria, segundo ele, valores opostos aos do original, e usaria o personagem dele para pregar a violência. Como já disse, não concordo com essa interpretação, mas também não me sinto confortável de ferir os sentimentos do cara, se a interpretação dele é diferente. Esse é um dos motivos pelos quais já não me senti mais à vontade para seguir administrando a página pessoalmente. Prefiro deixar que a coisa tenha uma dimensão difusa do que que vire uma coisa minha contra ele, afinal não tenho nada pessoal contra o cara.

O autor afirmou que se tratava de uma questão mais de direitos autorais do que uma represália ao conteúdo, correto? Você citou um trecho da lei que permitira algo dentro da linha do projeto, mas optou por tirar a página do ar. Por que tomou essa decisão?

Não foi bem isso. Na notificação inicial que ele mandou à página, ele falava em “uso comercial” e indicava responsabilidade criminal. Depois, quando conversamos por telefone, me pareceu que o que incomodava ele mais era o conteúdo. Mesmo sabendo que não havia fins lucrativos, ele se sentia incomodado, como disse, porque via ali uma mensagem oposta às ideias dele. São, é claro, duas coisas diferentes. Uma coisa é que você tem o direito, segundo a lei brasileira, de não permitir uma paródia quando ela não é facilmente discernível da obra original, ou quando a coloca em excessivo descrédito. Na minha opinião nenhuma das duas coisas é o caso, mas isso é debatível.

Outra coisa é você não querer que o treco vá contra as suas ideias. Isso a lei não prevê, é claro, porque seria contrário à liberdade de expressão exercida através da paródia, que não precisa pedir autorização ao criador do original para existir, muito menos concordar com as ideias dele. Acho o sentimento de ficar ofendido com uma paródia antidemocrático, se é que um sentimento pode ser antidemocrático, mas acho que isso é da conta do autor, e não da minha.

Tomei a decisão de tirar a página do ar, então, por conta desse conflito pessoal que acabou aparecendo e que não quero ter, e também por conta da questão jurídica. Mesmo que esclarecida pelo autor a ausência de intenção de processo, a possibilidade fica lá, de alguma forma, no background, e não quero ter que pensar nisso. É claro que, se fosse uma questão muito importante pra mim, daria pra levar isso adiante.

Mas acabei achando, no fim das contas, que o fim da página pode ser mais interessante que a sua continuidade. Afinal, trata-se de uma piada única. Ela se repete com variantes, mas não me parece que tivesse potencial pra continuar, no mesmo formato linear e unificado, por muito tempo, sem perder a graça e decair. Acho que, com a mobilização que se gerou na rede, as possibilidades criativas são muito mais interessantes.

O pessoal que se conheceu através da página criou um grupo onde estão sendo criadas muitas coisas, algumas ao meu ver muito interessantes. Há muita coisa escrota, também, mas isso faz parte. Essa produção disseminada, horizontal me parece bem mais interessante. É o Freakazoid, a força criativa incontrolável da internet, que pode fazer tanto coisas sensacionais quanto as piores merdas. Isso aí, então, já não é mais conosco. Até porque, conhecendo o artista que fez as paródias, não sei por quanto tempo ele se interessaria por manter esse projeto. Acho que rapidamente enjoaria. Ele gostou, certamente, de fazer as tirinhas, mas está totalmente alheio a toda a polêmica que está rolando.

Quando eu disse a ele que a página sairia do ar, mas que tinha adicionado ele ao grupo privado, ele nem foi olhar o que estava acontecendo, e me respondeu com uma frase sensacional: cool guys don’t look at explosions. Caras legais não olham para explosões.

Que discussão você espera que surja do caso? Muita gente já anda espalhando o material e produzido coisas semelhantes em outros lugares.

Eu, ao contrário do cara que não olha para explosões, me interesso muito pelo debate que surge do negócio. Ele levanta vários temas que me interessam — paródia e liberdade de expressão; funções do humor e da arte; interpretação da arte e das leis; direito e justiça. Um amigo meu que é especialista em direito autoral, disse que se esse caso fosse à justiça provavelmente seria discutido em congressos acadêmicos (como o caso da “Falha de São Paulo”, por exemplo). Isso é porque ele fica no limiar da interpretação da lei, isto é, naquele espaço em que, pelo texto, não dá pra saber de antemão qual a interpretação correta.

A discussão se a paródia é legítima ou não dá muito pano pra manga. Ela reproduzia 100% do original, mas ao mesmo tempo era facilmente distinguível dele. Ela era, certamente, violenta contra o original, como toda paródia em alguma medida é, mas é discutível que grau de desabono ao original justifica a supressão de uma paródia, afinal as paródias têm que existir e elas estão aí pra complicar. Seria preciso uma desvalorização muito grave do original pra justificar a supressão, mas isso é bem “subjetivo”. Acho que esses casos limítrofes são importantes porque levantam a discussão, tanto a discussão do direito quanto a da arte, a do humor, etc.

Acho que essa bola foi levantada e ainda vai quicar um pouco, e isso é ótimo, ainda que, evidentemente, saia do controle de qualquer pessoa ou entidade específica. Teve gente oferecendo espaço para publicação, uma página de “jovens de direita”. Um pessoal que faz uma paródia muito ruim do Latuff (que, em si mesmo, já é da turma do cartum com mensagem, mas pelo menos o faz muito bem) prestou uma homenagem à página que achei totalmente equivocada, porque era tão didática e sem graça quanto aquilo que pretendia criticar.

Muita gente tá instrumentalizando o negócio, então, dessa forma nada a ver e ainda por cima com uma mensagem escrota. Mas isso faz parte do jogo. Tem muita gente fazendo coisa interessante também, e tanto as coisas boas quanto as ruins levantam questões.



Quer ler mais sobre o assunto? Vale passar pelo post de Marcel R Goto, que chegou a receber uma resposta de Alexandre Beck sobre a página.



A breve vida da página "Armandinho morrendo violentamente" - Brasileiros

domingo, 8 de janeiro de 2017

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