segunda-feira, 23 de março de 2015

Artigo: Liderança equivocada

Por Heitor Pitombo
Artigo publicado originalmente na revista Mundo dos Super-Heróis 65 (março/2015) e reproduzido com autorização do autor e da publicação.
Em 30 de janeiro, enquanto se comemorava o Dia do Quadrinho Nacional, foi lançada no Rio de Janeiro a autointitulada Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos (ABRA-HQ). A cerimônia teve direito a hino nacional (ver vídeo abaixo), entrega de medalhas e tudo o mais. Na ocasião, foram anunciados os nomes de 20 artistas que nomeiam as cadeiras da instituição – incluindo o mestre norte-americano Alex Raymond -, assim como os de 20 “imortais” que as ocupam. Entre eles, alguns colecionadores.
Se não bastasse o fato desses nomes não terem passado por nenhuma votação entre a classe de quadrinhistas brasileiros, a presidente e porta-voz da Academia, a atriz e roteirista Agata Desmond, vem usando habilmente a mídia não especializada para divulgar propostas inócuas e espalhar inverdades sobre o mercado brasileiro, como disse numa entrevista para a Rádio Nacional-RJ: “As histórias em quadrinhos no Brasil tiveram seu auge no tempo da Rio Gráfica, da Ebal, da Vecchi e da Bloch, que foi o último império a cair. Agora, não tem mais editora, ninguém faz nada, os artistas estão desempregados”.
Sim, até os anos 1980, houve muitas redações que mantinham grandes equipes produzindo quadrinhos nacionais para as bancas. Mas a crise que tem abalado o mercado de revistas e jornais nas últimas décadas também se estendeu para as HQs – ainda que o estúdio de Mauricio de Sousa continue firme e forte até hoje. Por outro lado, nunca se produziu tantos quadrinhos no país como nos últimos dez anos. Se o segmento perdeu espaço nas bancas, ganhou um recanto nas livrarias.
Mecanismos como o Catarse, os editais do ProAC e o crescimento dos eventos de quadrinhos Brasil afora têm permitido a circulação e a visibilidade dessa produção – que, aliás, ostenta uma qualidade excepcional. Mestres reverenciados pela Academia, como Edmundo Rodrigues (1935–2012), nunca tiveram seus trabalhos lançados com o requinte gráfico que muitos iniciantes conseguem bancar via crowdfunding.
A família de Edmundo, por sinal, designou Agata para ser curadora de sua obra, e esta não mede esforços para frisar que a ideia da ABRA-HQ foi inspirada em uma vontade do mestre de que seu trabalho fosse preservado, e para colocar o nome do finado desenhista em destaque quando fala de seu projeto para a mídia. Curioso que, em seus últimos anos de vida, Edmundo até demonstrava disposição para falar sobre sua carreira, mas sua família rechaçou diversas tentativas que alguns jornalistas fizeram para entrevistá-lo, muitas delas com o intuito de registrar seu legado para a posteridade.
Outra coisa estarrecedora é como grandes veículos (jornais, rádios e até TVs) reverberaram a notícia da fundação da ABRA-HQ sem fazer nenhuma reflexão e dando vacilos de apuração. Muitos colegas chegaram a escrever absurdos, como fez a jornalista de O Globo On Line, Clarissa Pains, ao dizer numa reportagem publicada em 18 de fevereiro que o Tico-Tico era “uma tira nacional da década de 1940”. Até mesmo a repórter da Globo News, Elisabete Pacheco, numa matéria que foi ao ar em 30 de janeiro, entoou a seguinte pérola: “Hoje os desenhistas só publicam quadrinhos no Brasil graças a vaquinhas feitas na internet” (assistaaqui).
Apesar de possuir em sua cúpula membros ativos que defendem que autores como Angeli, Laerte, Glauco e os gêmeos Moon e Bá não têm espaço na Academia – e que sustentam absurdos como o fato do mutante Charles Xavier, dos X-Men, ter sido inspirado no nosso Chico Xavier –, há gente bem intencionada por trás da iniciativa. Todos acreditam estar unidos em um projeto para melhorar as condições de quem produz quadrinhos.
Mas a maioria esmagadora da classe vem se manifestando pela internet e tem repudiado uma entidade que, nesses moldes, não tem condições de liderar e unir a classe em todo o país. O mais correto teria sido lançar a ideia do projeto e discuti-lo exaustivamente com todos os segmentos para só depois formalizá-lo com uma liderança democraticamente constituída. Do jeito que está, a ABRA-HQ está se aproveitando de seu espaço na mídia para passar uma imagem equivocada do mercado. E esse modelo de liderança, para muitos, é intolerável.
Se fica uma lição desse episódio, é que os artistas nacionais precisam acordar e se organizar em torno de uma entidade forte e representativa, que lute pelo que realmente interessa a esse segmento tão vilipendiado.
Heitor Pitombo é jornalista e defende que academias de quadrinhos tenham suas cadeiras ocupadas apenas por artistas.
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