Trio de amigos gonçalenses conta história da 2ª guerra mundial

  Professor e irmãos gêmeos produziram revista em quadrinhos
Enviado Direto da Redação
Por Rennan Rebello

Para muita gente, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) pode parecer algo restrito às aulas no colégio ou na universidade. Talvez por isso não tenha uma visão mais ampla sobre o assunto que, além de atrair pesquisadores de diversas partes do mundo, também envolve um mercado peculiar e específico sobre este capítulo da história. Mas, em São Gonçalo, cidade que enviou soldados para a batalha, o professor de Artes Visuais Antônio Junior, 51 anos, e os irmãos gêmeos e graduandos em História, Daniel e Danilo Mota, 21, produziram uma revista de história em quadrinhos intitulada “Smoking Snakes: Você sabe de onde eu venho?”, com QR-Codes (códigos lidos por aplicativos que dão acesso a materiais extras como vídeos). A principal finalidade da iniciativa é a educação histórica através da memória do município que, de certa maneira, contribuiu para o êxito das tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no conflito armado.

A Rua Gaspar de Freitas, no bairro Mutondo, em São Gonçalo, ainda não é conhecida por sua história, no entanto não seria ousado dizer que em um futuro próximo será conhecida por três moradores que utilizam fatos históricos sobre a Segunda Guerra Mundial mesclando com a trajetória de ex-combatentes gonçalenses por meio da arte quadrinista. Apesar de serem de gerações distintas, o professor Antônio Junior e os gêmeos Daniel e Danilo Mota nutriam um laço de amizade na vizinhança, que tomou proporções no nível profissional.

“Conheço os meninos desde pequenos e já tinha amizade com a família deles, mas o que uniu de fato foi o assunto sobre a Segunda Guerra e o fato de, apesar de serem jovens, adoram coisas antigas. Além disso, eles também desenham assim como eu, e o projeto nasceu naturalmente. Criei o selo ‘Ôba’ (objeto de aprendizagem) através do qual lançamos a HQ “Smoking Snakes” no ano passado, escrita e desenhada por nós três. Foi literalmente um trabalho em grupo, que vem dando certo. Em eventos voltados neste sentido, os exemplares são bastante solicitados”, explica o professor que recentemente lançou em paralelo por seu selo mais uma revista do gênero, a “Smoking Snakes - relembrando os bravos”em formato mangá (quadrinho japonês).

À parte do projeto editorial, a paixão por este assunto fez com que os “irmãos da guerra” passassem a colecionar artigos originais, produzir roupas da época e se juntarem à Associação dos Ex-Combatentes de São Gonçalo, com sede no Patronato e conta com a direção do veterano Nelson Moreira Botelho, de 98 anos. Além dele, há suspeita de mais alguns vivos na cidade.

“Nosso avô, o Mota, que citamos na revista foi ex-combatente, mas ele não era de São Gonçalo, e no roteiro fizemos questão de citar combatentes daqui, como o senhor Oswaldo Mendes, que faleceu em 2016. Gostamos muito deste tema e fizemos questão de integrar a associação. Espero ajudar a manter, popularizar o assunto e encontrar outros ex-combatentes e pesquisar suas vidas”, disse Danilo que estuda História, na Faculdade de Formação de Professores (FFP/Uerj) e possui um arquivo em seu celular no qual consta o nome e informações específicas de quase todos os soldados brasileiros do Exército que lutaram na Itália, junto com o contingente militar oriundo dos Estados Unidos.

Outro objetivo que passa a ser em comum do trio é a promoção de um turismo ligado a este gênero, aproveitando o passado e a Praça dos Ex-Combatentes que, apesar de má conservada pelo poder público, tem artigos originais da Segunda Guerra, como um tanque de guerra, no entanto as peças estão vandalizadas e pichadas.

“É uma pena vermos essas relíquias neste estado, pois além de serem originais, poderiam servir como turismo com passeios guiados e local para palestras e aulas ao ar-livre. Estamos diante de algo histórico mas infelizmente a maioria não tem este conhecimento, e o nosso intuito é a difusão da informação. Queremos também desmitificar que este tema militar é coisa de ‘reacionário’ ou de adeptos da ‘direita’. Isso não tem nada a ver, isso é história, inclusive os combatentes tinham diversas visões políticas, inclusive de esquerda”, comentou Danilo, que faz sua graduação em História, no campus da UFF em Campos dos Goytacazes onde seu avô nasceu.

Aos interessados em adquirir um exemplar do quadrinho basta entrar em contato com o grupo através do perfil no Instagram: @smokingsnakeshq ou pela página no Facebook: Smoking Snakes.

João Barone, uma inspiração

O rock ‘n’roll também fez sua homenagem aos ex-combatentes através da banda de heavy metal sueca Sabaton ao citar os militares da FEB, na música “Smoking Snakes”. O que inspirou os pesquisadores de São Gonçalo em batizar a ação quadrinista com o mesmo título. E, em solo brasileiro, o baterista João Barone, dos Paralamas do Sucesso, que também pesquisa o tema e lançou o livro “1942 - o Brasil e sua guerra quase desconhecida” (2016), inspira Daniel, também é baterista e tem um exemplar autografado da publicação, na música como no estudo do assunto.

“João Barone é um dos maiores bateristas da América Latina e não é à toa que é reverenciado. Toco desde os 14 anos e não tem como não tê-lo como influência. Por coincidência, ainda temos o interesse em comum sobre o Brasil na Segunda Guerra. Já o presenteamos com um exemplar da nossa revista. Foi um dia inesquecível”, contou Daniel, o “João Barone gonçalense”, que toca aos sábados à noite com sua banda de rock Thecybeis e composta somente por irmãos, incluindo Danilo (que é baixista), no Australian Pub, no bairro Mutondo, onde reside desde a infância.

Atuação do Brasil ‘in loco’ no conflito
Após um acordo entre os governos brasileiro e americano em 1944, o então presidente Getúlio Vargas enviou tropas da Força Expedicionária Brasileira (fundada em 1943), para guerrear ao lado dos países aliados contra as forças do eixo composta pela (Alemanha nazista, Itália fascista e Império do Japão).

Os brasileiros estiveram nos campos de batalhas em solo italiano ao lado dos norte-americanos e foram bem sucedidos. Mas antes do sucesso na missão, havia uma descrença da população brasileira sobre a ida da FEB à Segunda Guerra, e era comum escutar na época a expressão “Só se a cobra fumar”, que tinha um sentido pejorativo de descrença e ironia. A partir disso, e como resposta aos compatriotas, os combatentes nacionais passaram a se intitular como “Cobras fumantes”, o que acabou fazendo com que os militares dos Estados Unidos passassem a se referir ao pelotão verde e amarelo na versão inglesa do termo, ou seja, “Smoking Snakes”.

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