Proibidão: Música para Adultos

Por Júlio Servo

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O que ficou conhecido como Funk Carioca, pancadão ou proibidão é música sim, ao contrário do que pensam alguns: música da pior espécie.

O erotismo, tema abordado na grande maioria dos casos, não possui tratamento estético nenhum. Tanto as letras como as danças tratam dos genitais pelos mais variados nomes, dos "lances", gravidezes; das formas mais explícitas, banais e sem reflexões; como só numa mesa de boteco, aqueles homens absurdamente mulherengos e zombeteiros são capazes de tratar.

A função do Funk Carioca não trabalha o contexto romântico-erótico nem com beleza e nem com pragmatismo. Fosse uma explicitude do sexo com uma nudeza fria, cínica, sarcástica ou bem humorada ( lembram da banda Blitz?), poderia ser imoral, mas ainda assim teria uma função artística superior. Mas não, o Proibidão conseguiu descer a círculos infernais piores dos que do Axé de dulplo sentido dos anos 90.

O Poibidão (prefiro chamar assim pra não blasfemar contra o verdadeiro Funk - aquele do James Brown pra quem não conhece); não expressa verdades ou visões sobre outras coisas que não 90% de sexo e uns 10% de bandidagem e criminalidade (Só aí, vemos como ele é limitado).

A sua função é menos artística e mais como pornografia sonora; onde "novinhas" e "velhinhas", simulam o coito rebolativamente nas mais variadas posições imagináveis.

Tal como a pornografia convencional, o Pancadão estimula o erotismo e provoca a libido; mas como a pornografia visual, sua projeção é mecânica e robótica. Ele é incapaz de emular no ouvinte os detalhes, agonias, aspirações e elevações do sexo real, feito por um casal que minimamente nutre um afeto carinhoso - e eu nem disse amor...
Os bits e as dobras do som funcionam como um mantra ao repetir dezenas de vezes num minuto, a palavra "vagina", por exemplo. Claro, as letras desse estilo, optam por vocábulos mais chulos...

Os mantras lançam sobre o imaginário afetado dos ouvintes uma cortina de fumaça que mutilará as nuances do sexo para aqueles que não tem o mínimo de arcabouço cultural ou espiritual fora dessa desgraça artística.

O Proibidão - acho que esse seja realmente o melhor nome pra vertente pornográfica - por vezes, chega a aproveitar aqueles passos menos indecorosos, rápidos e cheios de gingado do Pancadão carioca ( onde as pernas se cruzam e descruzam e flexionam  numa coreografia bacana e rememoram letras infantes como o de "Minha Vó tá maluca"  que trazem um pouco de humor e tem uma função- esta sim- mais musical do que sexual.

Imaginem os filmes de cinema (nenhum dos grandes festivais ou premiações tem troféus para o estilo "película adulta"). As garotas de progama conhecidas como atrizes pornô (falo assim, com todo o carinho por elas e sem moralismo - é apenas um fato) não precisam de talento, nem disciplina e nem vocação artística nenhuma. Ou melhor, sua potência artística - se existe-, nesse tipo de produção é próxima a zero - ainda que tenham  estudado dramaturgia durante anos.

O caminho que escolheram, inferioriza as suas virtudes interpretativas; pois gemer de um jeito ou de outro, por mais verossímil que seja um gemido, não envolve disciplina nenhuma a não ser  o resgate de emulações simplórias que estão no imaginário da maioria dos seres humanos. E simular uma pessoa que não existe - um personagem - é bem diferente de fazer algo que a maioria dos seres humanos fazem ou farão um dia na sua intimidade.

A geração do Proibidão, será uma das mais frustradas sexualmente.
Justamente por bestializar e, mais ainda, robotizar o sexo, terá dificuldades de experimentar, pelo menos, por muito tempo, a plenitude dos prazeres sensoriais, e falo dos físicos mesmo (para ser redundante). Menos capazes ainda, serão, de usufruir da influência que a alma e o espírito podem promover, elevando à potência máxima a experiência sexual, emanando sobre esse quase-ritual divino, criado, dentre outras coisas, para que um homem e uma mulher celebrem a sua união e se recreiem nela.

Não é a toa que o Dr. William Lane Craig exponha que pessoas com valores mais elevados tem uma vida  mais satisfatória nessa área...

A minha esperença é que a maioria dos ouvintes de Proibidão ouçam - sim, é triste dizer isso, e é assunto pra um próximo capítulo- pelo menos, pagode.

E antes de dizer que eu não sei nada sobre este lixo que jamais esteve na minha playlist musical, não ignore o meu poder de análise e síntese.

E muito menos a pesquisa de campo:

Acabei de voltar de um baile "funk".

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Júlio Servo é poeta e blogueiro. Seus poemas, artigos e vídeos são publicados no www.poesiaetudomais.wordpress.com

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