Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura

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Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras
pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas
se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e
2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior,
e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.


Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A
gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer
de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude
das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas
instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e
radical sempre faz mais sucesso.


O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma
coisa dos 29, para ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma amostrinha
recente, no século 21 os vencedores foram:


2017 - Kazuo Ishiguro


2016 - Bob Dylan (nunca li mas ouvi bastante)


2015 - Svetlana Alexievitch


2014 - Patrick Modiano


2013 - Alice Munro


2012 - Mo Yan


2011 - Tomas Transtromer


2010 - Mario Vargas Lllosa


2009 - Herta Muller


2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio


2007 - Doris Lessing


2006 - Orhan Pamuk


2005 - Harold Pinter


2004 - Elfriede Jelinek


2003 - John M. Coetzee


2002 - Imre Kertész


2001 - V.S. Naipaul


2000 - Gao Xingjian


Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa
boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus
autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.


Kazuo Ishiguro? Quase nunca li. Escreve sobre o passado, ficção
científica, fantasia, drama. Varia de tom e tema, o que é incomum e
intrigante. Britânico nascido no Japão, escreve gostoso, pelo menos no
seu único livro que li, The Buried Giant, O Gigante Enterrado, uma
fábula arturiana com bruxas e ogros. Mas vi um filme baseado em livro
seu, Os Vestígios do Dia, chatíssimo, e ele me espaventou da obra de
Ishiguro.


Ele é a exceção que confirma a regra. A maioria dos vencedores do
Nobel escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Já leio muita
não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente
por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e
atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.


Previ anos atrás que pela crescente estatura internacional do país,
na próxima década o prêmio não nos escaparia. Mas nossa boa fase se foi.
De qualquer forma, se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou
porque simplesmente terá chegado a hora do Brasil levar o prêmio, é
outra história.


O Nobel não premia "o melhor escritor do mundo do ano". No caso de
nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo
conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste
século que li mais ou menos, com Vargas Llosa).


Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor,
e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai
ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou
latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, por que
nunca ganhou, e quando vamos ganhar?


Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade
social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick. Com ginga e humor. Nem
precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e
Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do
mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade
única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos,
ensaistas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás,
contistas.


A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um
chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São
Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem
diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.


Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as
profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são,
pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a
maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80
para cá.


O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu
mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e
meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso
da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela
analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de
editoras variadas. É mostra significativa.


Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de
"pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem
brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e
sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal
nos nossos livros.


A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros,
tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas
posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente
não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação
nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances,
todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável,
bandido e, principalmente, coadjuvante.


Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando
jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não
sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar
concordâncias, economizar nas vírgulas.


Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde
que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de
redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu!
Bem, sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista,
branco, cinquentão, e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão
romantizada, e muito menos realista...


A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a
literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor
nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas
exceções.


O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o
universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos
leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de
classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.


Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe
média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de
vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante
prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o
favorito de escritores que não vivem de escrever.


Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não
sabe ensina... Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda
muito bem nas mal-traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a
escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para
músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).


No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns
três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de
3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai
escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele
não vai ganhar dinheiro nenhum com isso.


Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem
as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e
aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do
escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela
participação. Cavar verbinha do diretor de marketing do banco. Preparar a
palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros
picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o
sistema.


Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na
brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística.
Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do
humano. Dizer de maneira poderosa é divino.


Escritor que depende do poder político e econômico se assume
subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O
que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a
regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.


Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias,
conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue.
Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça,
eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o
que produziram? O relógio de cuco."


Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem
estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século
passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora,
casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos
pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual.
A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro
sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer,
datilografando até altas horas, os nenês chorando.


Podemos e devemos fazer melhor. Ficção exige imaginação e
encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade.
Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.


Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a
prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um
romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.


Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito
menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e
não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos
ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à
linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa
literatura é papo de crítico cretino.


A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção
brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo
lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu
mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo,
revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos.
"Influence is Bliss", resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a
maioria.


A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua
a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas.
Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas
fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e
retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.


A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior.
Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam.
Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos.


A vencedora do Nobel de literatura de 2015 foi uma jornalista e das
boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter,
lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto
de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente
quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar.


Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil
precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance
sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de
sacanagem perto do Brasil do século 21.


Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é
sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para
outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é
fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.



























fonte:



Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura – André Forastieri – R7







Comentários

Que Postagem maravilhosa! Parando para ver os livros nacionais que li todos se encaixam nas categorias que citou e que não chama a atenção para um prêmio dessa magnitude.

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