Um roteiro crítico das bibliotecas do Centro da Capital

Um roteiro crítico das bibliotecas do Centro

Da precaução da ABL, que veta a corrupção
de menores, à vivacidade da Biblioteca Parque Estadual, um passeio
pelas bibliotecas do Centro, para descobrir como elas tratam quem quer
estudar e trabalhar em um espaço público.
Como usuário das bibliotecas do Centro da capital, para ler, estudar e escrever, sou frequentemente tomado por desânimo.



Todas, em alguma medida, são dotadas de qualidades: acervos ricos, belos prédios, equipe cordial ou ambiente confortável.



Isto posto, várias delas transmitem uma sensação incômoda de
desperdício ou mau uso. Não é que as bibliotecas precisem de grandes
mudanças: o fundamental — um prédio e livros — geralmente tem ótima
qualidade.



Ainda assim, no que deveria ser mais simples e trivial, os
responsáveis pelos espaços às vezes parecem simplesmente ter se
distraído ou descuidado. Em fatores que supostamente deveriam ser de
fácil realização, mas que também são indispensáveis para quem quer
estudar ou trabalhar em um espaço público em 2015 — como internet de
qualidade, tomadas para computadores, luz natural, regras de uso que
acolham os frequentadores —, as imperfeições são muitas, e
frequentemente de caráter inusitado.



Com o propósito de averiguar a quantas andam as bibliotecas do Centro
para quem deseja utilizá-las como espaço de trabalho, percorri um bom
número delas ao longo de dois dias, atentando para suas normas, sua
frequência, sua disposição física e seus serviços — para o estado em que
se encontram e o que oferecem, em suma.



Fui acompanhado por um livro de bolso, um laptop e um caderno — isto
é, os instrumentos de trabalho de um estudante ou de um leitor —, além
de uma garrafinha d’água, para não precisar interromper o expediente.



O resultado de minhas impressões, na ordem de suas visitas, foi o seguinte:



Médiathèque (Maison de France):
Localizada no prédio do consulado francês, na avenida Presidente Antônio
Carlos, a biblioteca foi fechada para obras em agosto do ano passado,
e, desde então tem funcionado em esquema provisório, com acervo
reduzido, no corredor do setor do consulado dedicado à cultura.

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Maison de France: em reforma, mas com mesmo serviço hospitaleiro de sempre.
Em seu modo de operação normal, a Maison costumava ser um lugar
acolhedor, de vista esplendorosa para a Baía de Guanabara e o Pão de
Açúcar, ar-condicionado forte, cerca de 30 lugares, livros e dvds
franceses à disposição (a maioria no original, mas também alguns em
português) e equipe simpática e dotada de grande vontade de não
atrapalhar seus frequentadores, permitindo que consultassem os próprios
livros, bebessem da própria água e usufruíssem de ótima internet.



Desde o fechamento provisório, algumas novas regras foram instituídas
no edifício onde está instalada. Uma breve inspeção na porta do prédio,
com os seguranças verificando minha mochila, foi uma novidade, assim
como um rápido cadastro na portaria.



Em relação à biblioteca em si, para quem está funcionando em modo de
exceção, a Maison vai muito bem, obrigado. Os funcionários na entrada
são os mesmos, os livros à disposição para empréstimo, se menos
numerosos do que o normal, continuam a ser inencontráveis em qualquer
outra biblioteca da cidade (há diversos lançamentos franceses, de
filosofia a cinema, por exemplo) e l’ambiance, a despeito da
ausência completa de janelas, tenta reproduzir como pode o original, com
prateleiras espalhadas pelas paredes e uma longa mesa ao centro.



Enquanto estive lá, fui o único visitante, e recolhi-me a uma das
poucas cadeiras disponíveis. A hospitalidade continua a norma da casa, e
nenhum funcionário me procurou para me censurar pelo que quer que
fosse.



Quando, todavia, depois de cerca de uma hora lendo, fui perguntar a
senha do wi-fi, tive uma grande surpresa: não era para eu estar ali, uma
vez que a biblioteca tem funcionado apenas com empréstimo de livros, e
não como salão de leitura. Isto é, em tese, a biblioteca da Maison nem
deveria aparecer neste texto, uma vez que, por ora, ela não é uma opção.



Surpreso pela minha ilicitude involuntária — e já ciente da senha do
wi-fi — voltei para minha cadeira, onde fiquei por mais trinta minutos
navegando na internet, até achar que já era hora de partir.



De acordo com as normas oficiais, portanto, só em novembro a Maison
volta a se tornar um lugar para trabalho e estudo, quando termina a
reforma do salão. Na prática, contudo, aqueles que até lá quiserem
esperar na mesa do corredor, possivelmente poderão fazer isso, pois a
gentileza dos funcionários talvez os impeça de pedir para um leitor se
retirar.



Biblioteca Rodolfo Garcia (Academia Brasileira de Letras):
A biblioteca da ABL é um lugar de regras abundantes e meticulosas. Para
usá-la, além do cadastro na portaria do edifício, é necessário, em
primeiro lugar, ter em mãos documento de identidade e comprovante de
residência.



Depois disso, é preciso ler e assinar três formulários. O mais longo
deles, de 10 páginas, merece atenção detalhada. Ele determina, por
exemplo, que: não está autorizada a corrupção de menores por quem
utilizar a internet; esquemas de corrente, pirâmide ou bola de neve
também não são permitidos; “redes sociais“ (“Orkut, Friendster, Par
Perfeito, Almas Gêmas, Fotolog, Blog, entre outros”), tampouco; caso
algum frequentador se ofenda com conteúdo visto na internet, a
biblioteca não possui responsabilidade sobre isso; não se pode enviar ou
divulgar mensagens de “conteúdo falso ou exagerado, que possam induzir
ao erro o seu receptor”; só se pode ir ao banheiro sem levar mochilas ou
bolsas; short, camiseta e chinelo não estão liberados (“sendo assim
fica liberado o uso de bermudão, isto é, até o joelho para ser usado na
biblioteca (...) principalmente no verão do Rio de Janeiro”), e por aí
vai.

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ABL: um lugar sério e de normas minuciosas.
Além destas regras, exige-se a leitura de outras advertências, e o
fornecimento de informações para cadastro que vão desde o telefone de
algum familiar – para a eventualidade de um piripaque por parte do
usuário – ao endereço de seu empregador.



Em meio a esta superabundância de formalidades, a que mais incomoda,
de longe, é a interdição do uso de teclados de computadores. Na
biblioteca da ABL, laptops — assim como livros pessoais — são
bem-vindos, mas não é permitida a “digitação de trabalhos no salão de
leitura”. Quem quiser mandar um e-mail, escrever um texto ou realizar
uma simples busca no Google deve se limitar a um dos três cubículos
disponíveis – todos ocupados, em minha visita – ou à pequena baia de
computadores.



Impossibilitado de escrever digitalmente, o usuário pode, além de
usar o mouse para acessar a internet (ótimo wi-fi, aliás), se contentar
com os livros do acervo, formado sobretudo por obras de literatura.
Raridades estão disponíveis para consulta, e empréstimos também são uma
possibilidade para os mais assíduos.



A respeito do público, o belo e amplo salão, de cerca de 60 lugares,
estava cheio de estudantes, sobretudo concurseiros e pesquisadores,
silenciosamente tomando notas em seus cadernos. As persianas totalmente
fechadas e os bustos de imortais à volta acrescentavam gravidade à cena.



Seria um privilégio saber o que aquelas dezenas de pessoas, muitas
usando computadores literalmente intocados, pensam do espaço, uma vez
que pareciam ir ali com frequência. A norma do silêncio, entretanto, é
uma das poucas vigentes que consigo facilmente compreender, de modo que
preferi sair sem dizer nada.



Biblioteca Euclides da Cunha (Palácio Capanema):
Talvez isso se deva ao único usuário que lá estava em minha visita — um
jovem cochilando inclinado sobre o próprio livro numa mesa ao fundo —,
mas a biblioteca do Palácio Capanema parece se encontrar em um estado de
dormência.



Até algumas décadas atrás, ela certamente era uma das melhores da
cidade. Com cerca de 50 lugares divididos em mesas grandes, espaçosa,
provida de curvas niemeyerianas, a biblioteca ainda mantém parte de seu
mobiliário original de mais de 60 anos, incluindo aí as estantes que
guardam as fichas catalográficas do acervo de 150 mil livros.

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Capanema: biblioteca adormecida.
A não digitalização do catálogo dá a dica do que está por vir: a biblioteca não disponibiliza wi-fi para os visitantes.



Como resultado, aquele que poderia ser um dos melhores espaços na
cidade para quem deseja trabalhar encontra-se abandonado, vazio e
desalentador.



O mais lamentável é que seria bastante simples fazer a gigante
acordar: a atmosfera da década de 1940 é formidável; já há tomadas; as
janelas inesperadamente dão conta do recado e mesmo a ausência de
ar-condicionado não torna o calor insuportável; o consequente barulho
dos ônibus, se não ajuda, também não atrapalha a concentração (o
trânsito é um dos poucos lugares onde encontramos o silêncio na
atualidade, dizia John Cage);
as normas da casa são bastante simpáticas, oferecendo empréstimos e
permitindo a entrada de material próprio, incluindo livros e computador.



Em tese, bastaria, portanto, assinar um servidor de internet, para
que suas mesas voltassem a estar cheias de gente — e não é de se
desconsiderar que até mesmo o jovem adormecido ao fundo se sentisse mais
estimulado a acordar.



Real Gabinete Português de Leitura: Possivelmente a construção mais encantadora da cidade, várias vezes eleita uma das bibliotecas mais bonitas do mundo, está há dois meses em reforma para restauração da abóbada, com conclusão prevista para o fim do ano que vem.



Durante as obras, o lustre foi rebaixado para o centro do salão, e as mesas que ali ficavam foram deslocadas para os cantos.

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Real Gabinete: joia em manutenção. [Foto: Bolívar Torres]
Boa parte da mágica das estantes altas e cheias de volumes se perde
na configuração provisória, problema que se acentua com os cochichos de
turistas, menos avergonhados do que o costume, e com a movimentação de
operários.



Ainda assim, o salão continua funcionando para quem quiser ali ler,
com meia dúzia de cadeiras, todas ocupadas. Há internet sem fio, mas, na
situação atual, não há tomadas.



Um problema antigo também persiste: o Real Gabinete permite somente a
leitura de livros de seu próprio acervo, o que inviabiliza a frequência
de quem estuda o que não está lá disponível. A norma parece não fazer
grande sentido, uma vez que os pertences dos frequentadores ficam
guardados em escaninhos do lado de fora, e um sistema de controle
simples impediria roubos ou extravios.



Faria bem, deste modo, que a reforma não se limitasse apenas à arquitetura, mas se voltasse também para regulamentos obsoletos.



Biblioteca Parque Estadual: Quando propus este texto
à minha editora, um problema que temia era a expectativa de a
Biblioteca Parque Estadual ser a melhor do Centro, o que poderia gerar
controvérsia, por se tratar de uma parceira do Vozerio.



Para provar independência jornalística, começarei, deste modo, por
elencar seus problemas: a internet é instável e caiu duas vezes durante
uma hora de uso; aquela região da Presidente Vargas fica vazia à noite
e, suspeito, aos sábados; se antes havia filas para assistir a filmes,
as novas regras de uso da DVDteca, que agora exigem agendamento prévio,
fizeram com que várias cabines fiquem vazias; a comida do café é meio
chinfrim.



Isso posto, a Biblioteca Parque Estadual continua a ser, de longe, a melhor do Centro da cidade.



A fazer jus ao nome Parque, nela, mais do que em qualquer outra, o
frequentador sente estar em um espaço vivo, de convivência, troca,
hospitalidade e mútuo aprendizado.



Isso se dá, como já foi falado,
pela composição heterogênea de seu público, que foge do combo habitual
de concurseiros + estudantes de pós-graduação e inclui também alunos de
escolas públicas, moradores de rua, crianças, pessoas que nunca
estiveram em uma biblioteca e agora vão lá sempre.



Manifesta-se também em seu acervo, disponível para empréstimo, que
inclui de filosofia a enfermagem a quadrinhos e a jornais, além dos já
mencionados filmes, sem elitismos, mas mesmo assim guardando opções para
públicos especializados.



Pode ser percebido também na arquitetura, que aproveita a luz natural
e é cheia de janelas, além de facilitar a circulação e a sociabilidade.



Há ainda as regras de uso, que admitem o uso de laptops, a entrada de
livros pessoais e até a garrafinha d’água, incentivando os visitantes a
se sentirem à vontade, e que ainda assim proporcionam um clima calmo e
propício ao trabalho, não por meio de paranoias kafkianas, mas sim de um
equilíbrio natural que surge entre os usuários, chamado bom-senso.

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Biblioteca Parque: espaço acolhedor para nosso tempo.
Poderiam ser citados ainda os múltiplos usos do espaço, que incluem
debates, oficinas e peças de teatro, ou a mobília, que, além de vários
tipos de mesa, conta também com poltronas, bancos e cabines individuais e
coletivas, compreendendo que as necessidades de cada usuário são
diferentes, e que a oferta de serviços também deve ser.



Em abril deste ano, por questões financeiras, a biblioteca reduziu
seu horário de funcionamento, e deixou de abrir nos fins-de-semana. A
repercussão negativa foi alta, e pouco depois o lugar voltou a funcionar
aos sábados e ampliou também o horário em dias de semana. Já é um
(re)começo, mas também pode se sonhar com o que dia em que, a exemplo do que já acontece em outras capitais, a biblioteca passe a ter um funcionamento ininterrupto. Em um país onde a maioria dos habitantes não leu um livro sequer no ano passado, espaços como a Biblioteca Parque Estadual são verdadeiros oásis.



Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB): Decerto há
alguma razão arquitetônica para isso, mas não deixa de ser curioso que o
salão de leitura da biblioteca do CCBB tenha se instalado onde poderia
estar o cofre do banco, enquanto o banheiro possui bela vista para a
Baía de Guanabara.



O confinamento total, acentuado por uma luz fria e pela decoração que
não inclui nada além de mesas e cadeiras, com qualquer ponto do salão
sendo visível de qualquer outro ponto, torna a experiência de se estar
ali algo claustrofóbica.

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CCBB: salão espaçoso, mas onde livros pessoais não podem entrar.
É uma pena, porque o acervo das estantes, localizadas do lado de fora
do espaço reservado apenas para leitura, dispõe de variedade e riqueza,
indo de engenharia a livros raros de arte. Para agravar a situação,
este acervo não pode ser consultado fora da biblioteca senão por pessoas
cadastradas em outras instituições ou por funcionários do banco, o que
ressalta a importância de um salão agradável.



Importância reforçada também pela política de uso atual, que,
inacreditavelmente, não autoriza a entrada de livros próprios, e que
permite apenas — embora a regra com frequência não seja cumprida —
artigos de, no máximo, 20 páginas.



A internet, uma crítica frequente na reabertura da biblioteca após
anos de obras em 2012, atualmente funciona bem, e provavelmente é ela a
razão para o salão de 100 lugares estar usualmente cheio.



Os horários da casa também merecem elogios. Atualmente a única
biblioteca do Centro do Rio (da cidade inteira?) a funcionar domingo é a
do CCBB, e também é ela a que permanece aberta até mais tarde (21h).



Serviço:



Biblioteca Euclides da Cunha (Palácio Capanema): Rua da Imprensa,16 / 4º andar. De segunda a sexta, de 9h30 às 17h30. Tel: (21) 2220-4140.



Biblioteca Parque Estadual: Avenida Presidente Vargas, 1261. De terça a sábado, das 11h às 19h. Tel: (21) 2332-7225.



Biblioteca Rodolfo Garcia (ABL): Avenida Presidente Wilson, 231 – 2º andar. De segunda a sexa, das 9h às 18h. Tel: (21) 3974-2550



CCBB: Rua Primeiro de Março, 66 – 5º andar. De quarta a segunda, das 9h às 21h. Tel: (21) 3808-2020.



Médiathèque (Maison de France): Avenida Presidente
Antônio Carlos 58 – 11º andar (até novembro, a biblioteca funciona
excepcionalmente no 4º andar). De terça a sexta, das 10h30 às 18h30. Tel
: (21) 3974 6669.



Real Gabinete Português de Leitura: Rua Luís de Camões, 30. De segunda a sexta, das 9h às 18h. Tel.: (21) 2221-3138.



OBS: A Biblioteca Nacional trabalha apenas com consultas a seu acervo
e não permite a entrada de laptops, razão para sua omissão neste texto.




Um roteiro crítico das bibliotecas do Centro

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