Livro no Brasil não é caro coisa nenhuma


Uma longa resposta para a pergunta que não quer calar

A
ideia de que livro é caro no Brasil é repetida à exaustão, até por
pessoas que não costumam comprar livros. Desde sempre ouço gente dizer: livro é caro aqui.
Da hora.

Então, por que defendo que livro no Brasil não é caro?


adianto que a resposta para isso é imensa. E vou enumerar cada um dos
motivos pelos quais tenho plena convicção de que, não só para mim como
para qualquer pessoa razoável, o preço do livro no Brasil é bastante
justo.
Em
primeiro lugar, muitas pessoas acham o livro caro por causa do valor
que atribuem a ele — e aqui falo de valor agregado, valor psicológico, e
não monetário. Explico. O preço médio de uma promoção BigMac
no McDonald’s é vinte reais. É raro ouvir uma pessoa questionar o valor
do lanche. Até pode acontecer de dizerem que é caro em relação a outras
comidas; raramente, em relação ao seu preço no exterior.
De todo modo, por que falei disso? Porque o valor do BigMac é o valor do BigMac.
Ou você compra ou você não compra e vai comer em outro lugar, gastando
mais ou gastando menos. (Mas o McDonald’s continua lotado, e sempre é o
mais cheio de todos os restaurantes de um shopping, pelo menos em São Paulo.)
Com
vinte reais compra-se um livro em qualquer livraria, ou até dois, se
houver uma daquelas megapromoções no Submarino. Ou algumas edições pocket.
Ao comentar o assunto no Facebook, recebi várias respostas dando exemplos como esse. O escritor Eduardo Spohr
veio com um ótimo: é muito difícil gastar menos de cinquenta reais numa
balada (em São Paulo ou no Rio, ao menos, para onde, aliás, as lojas
virtuais costumam oferecer frete grátis de livros). Já o escritor José Roberto Vieira acrescentou que, somando tudo, incluindo estacionamento, não é incomum o preço de tudo chegar a cem reais.
Bem,
há livros nessa faixa de preço, mas, considerando a maioria dos títulos
no preço de lançamento, seria possível comprar pelo menos três com esse
dinheiro.
A também escritora Ana Lúcia Merege
mencionou o preço da entrada de cinema. Spohr nos lembrou também do
valor de um jantar em restaurante. Se pararmos para refletir sobre as
pequenas coisas supérfluas (que consumimos) do dia a dia, quase tudo
alcança ou até ultrapassa o preço médio de um livro.
Só observando você dizendo que livro é caro enquanto come todo sábado no McDonald’s.
Vou
dar um exemplo de quando estava trabalhando no estande da Vermelho
Marinho, numa feira de livros. Falo de uma feira destinada
principalmente a alunos e professores da rede municipal da cidade em
questão, público esse que recebe vales da prefeitura para comprar
livros. Como os vales de cada criança totalizam vinte e cinco reais,
todas as editoras participantes descem o preço dos livros o máximo
possível, para que todos possam comprar livros bons e baratos (vale
notar que nessa feira participam editoras de qualidade e fama
inquestionável como os selos do grupo Autêntica, Cosac Naify, Biruta e
Aleph, para citar apenas algumas).
Pérolas que ouvi:
  • Nossa, quanto livro caro! [de dez a quinze reais]. Cadê os de cinco? — diz a professora, ultrajada.
  • Vocês
    não trocam isso aqui [os vales] por dinheiro de verdade não,
    né? — professora pergunta, e, ante a resposta negativa: — Aff, nem dá
    pra ir no shopping. Vou ter que comprar livro. Que que eu vou fazer com
    livro?
  • Minha
    professora falou que só era pra comprar livro de cinco reais — diz
    criança do primeiro ano, meio assustada, meio incerta, segurando todos
    os vales contra o peito.
Gritando internamente.
Claro
que lá havia muitas professoras legais e maravilhosas, mas vamos pensar
nos exemplos acima, porque não são exceção e sim a regra em todas as
esferas sociais, e não apenas nas mais carentes. Muitos dos expositores
da feira eram editoras bastante gabaritadas, com obras infantis
premiadas no Jabuti, com obras detentoras do selo “Altamente
Recomendável”.
O
valor atribuído a um livro pelos editores parecia, àquelas pessoas,
alto demais, mesmo que o pagamento fosse realizado com vales dados pela
prefeitura. Não é por falta de incentivo do governo que muita gente não lê. Agora o pior é que essas pessoas têm influência sobre as crianças para quem dão aula, e incentivam esse tipo de pensamento.
Eu
cheguei a falar para uma professora mais grosseira que ela nunca devia
ter entrado numa livraria. De olhos arregalados, ela tentou negar, mas
eu disse: “Não, professora, eu sei que você nunca entrou numa livraria.
Se tivesse entrado, ia estar maravilhada por conseguirmos pôr tantos
títulos a dez ou quinze reais”. Não se trata de uma cidade sem
livrarias, nem distante da capital de São Paulo. Na verdade, é uma
cidade da grande São Paulo.
Bem, saindo dessa tragédia, ainda há mais a ser dito.

O que compõe o preço do livro?

A maior parte das pessoas não faz a menor ideia da quantidade de gente que trabalha num livro. Não tem problema, eu conto.
Começamos com o autor. Esse é óbvio, né?
Ok,
vamos adiante. Se o livro é nacional e inédito, quando aprovado pela
editora, depois de assinado o contrato com o autor, ele vai para um
copidesque. É comum que esse trabalho seja executado pelo editor, ou
assistente editorial. Essa pessoa mexe na estrutura do texto. É quem
manda o autor tirar uma personagem, aumentar a participação de outra,
tirar cenas, acrescentar outras, reescrever outras. Entre editor e
autor, essa troca pode acontecer várias vezes, ao longo de meses.
Engana-se quem pensa que o livro sai como o autor mandou.
Depois
que o texto foi retalhado e reconstruído, vai para um preparador de
texto. Essa pessoa vai tirar repetições, incoerências, corrigir erros de
coesão e dar uniformidade ao texto, em nível textual.
Seguindo-se
ao preparador, vêm as revisões. Digo no plural porque é uma verdade
universalmente reconhecida que, ao se mexer muito em um mesmo texto,
você deixa erros passarem e não consegue mais vê-los todos. Se a
preparação e o copidesque tiverem sido muito trabalhosos, o texto passa
idealmente por dois revisores; o primeiro limpa o grosso e o segundo
passa o pente fino. Em muitos casos pode haver um terceiro; às vezes até
um quarto revisor.
Adivinhe só: todas essas pessoas são pagas. Sendo funcionários da editora ou freelas, o valor do trabalho dela será incluso no preço final do livro.
Há mais coisas depois, mas antes quero fazer o percurso até aqui no caso de uma tradução.
Em
traduções não alteramos nada na estrutura do original (presume-se que
já tenha passado por tudo isso na editora de origem), mas a etapa é
substituída pela tradução em si. Antes disso, a editora paga um
adiantamento ao autor. Lembrando que, se o livro é estrangeiro, o custo
pode vir a ser pago em dólares ou euros, moedas bem mais valorizadas do
que a nossa. Só depois disso, os agentes literários (pois os gringos,
sempre os têm para conduzir as negociações) passam os arquivos para a
tradução.
Então
segue para o tradutor. Eu, enquanto tradutora, sempre faço uma revisão
de tradução antes de enviar a minha parte ao revisor de tradução
propriamente dito, mas isso não é a regra geral (até porque é comum
prazos de tradução serem IN-SA-NOS). O livro então sai do tradutor e vai
para o revisor de tradução, que vai pôr o original e o texto traduzido
lado a lado e ver se o tradutor não pulou nenhuma frase, ou se deu uma
escorregada em alguns pontos, o que é trabalhosíssimo.
Daí
vem um peso gigante sobre o revisor de tradução, porque recai sobre ele
a tarefa de pescar coisas que possam escapar ao tradutor. Só que ele também trabalha com as duas línguas.
Depois
do revisor de tradução, a obra vai para o preparador de textos, porque
não basta a tradução estar boa; ela tem que parecer um livro escrito em
português (gente, sigam meu perfil aqui no Medium, porque eu escrevo
textos sobre tradução e explico melhor esses detalhes do processo da
tradução, e o motivo de cada coisa).
O
preparador não costuma ver a obra original (a menos que vá fazer também
a revisão de tradução), só a traduzida, e seu trabalho consiste
principalmente em dar cara de língua portuguesa a ela. Dependendo do
tradutor, esse trabalho é mais difícil ou mais fácil.
Após o preparador, o texto passa por dois revisores, pelos mesmos motivos de que já falei no caso das obras nacionais.
Adivinhe? É, toda essa galera é paga.
Se
o livro tiver ilustrações internas, o ilustrador entra no processo.
Então vem a diagramação, que não é feita por mágica, mas sim por uma
pessoa. O livro costuma passar por uma revisão depois que a prova é
impressa, em seguida o diagramador faz as correções necessárias.
Entram os responsáveis pelas orelhas e quarta capa, o capista…
Ufa! Acabou?
Ora,
a coisa toda só começou. Até aqui não temos exatamente um produto. O
livro diagramado e a capa vão para a gráfica (que tem custos de papel,
tinta, máquinas…), e de lá ele sai como uma coisa física, real,
comercializável.
Sai como? Andando? Não. De transportadora — de onde virá para a editora a conta do frete.
Bem,
e quando os livros chegarem, para onde vão? Para um estoque, cujo
espaço é pago pela editora, porque nada é de graça nessa vida.
É
bom ressaltar que até aqui a editora só pagou e ainda não recebeu nada
(nem sabe se vai receber, aliás, porque vendas não são garantidas).
Enquanto isso acontece, o pessoal do marketing
está fazendo o que pode para promover o livro com o que tem ao seu
alcance: mídias sociais, blogs parceiros, anúncios e compra de espaço em
vitrines (no caso de editoras maiores), eventos. E o povo do comercial
está vendendo o livro para as livrarias e/ ou distribuidoras. Via de
regra, 50% do preço da capa fica com a livraria. Que, vale ressaltar,
não é nenhuma vilã. Na verdade, não há vilão.
A
livraria, por sua vez, tem vendedores, compradores, funcionários de
caixa, aluguel do espaço/ imposto, em alguns casos despesa de estoque,
pessoal de logística, administração, financeiro… Logo, o lucro dela
também é pequeno.
Quando há distribuidor, este fica com 10% do valor.
Voltemos
à editora. Aqueles 50% do preço de capa (ou 40%, caso a venda seja
feita via distribuidor) que ela vai receber por exemplar (estamos
supondo que todos vendam, hein, e isso não é sempre o que acontece) vão
pagar a gráfica, suas contas, os profissionais e o autor, e eventuais
empréstimos (porque nem todo mundo tem vários milhares de reais para
investir logo de cara).
Ah, o acerto das livrarias varia, mas costuma ser para noventa dias depois da venda do livro ser efetuada para o consumidor.
É que as livrarias, como têm todas as suas próprias despesas, não fazem
sempre compra de fato (quando o pagamento é para trinta, sessenta ou
noventa dias), preferindo fazer consignação. Ou seja, pagam o produto só
depois que o consumidor final (o leitor) efetua a compra.
Toda a cadeia para fazer o livro chegar à livraria já foi paga.

coisas que ajudam a baratear todo esse investimento? Sim. Uma das mais
expressivas é a quantidade de livros impressos, porque, quanto mais você
imprime, menor o valor por exemplar. É por isso que livros de mais ou
menos o mesmo número de páginas e mesma qualidade gráfica podem variar
até trinta reais dependendo do tamanho da editora: as maiores têm como
rodar dez mil livros numa só tiragem (o que é bem raro mesmo para elas),
enquanto nem todas as pequenas conseguem fazer uma tiragem de mil. Na
verdade, para algumas dessas, mil livros é uma tiragem imensa,
ambiciosa.
Ah, mas se diminuir a qualidade gráfica, fica mais barato!, você me diz.
Isso nos leva a outro problema…

A questão dos livros estrangeiros baratos

O
argumento mais frequente para se alegar que o livro brasileiro é caro,
é: no exterior, você encontra livros de três dólares/ euros, mas não
fazem edições tão baratas aqui.
Antes de qualquer outra coisa, os livros baratos são ou obras em domínio público há muito tempo (clássicos) ou best-sellers. Ninguém faz edição barata de lançamento. Só fazem mass market paperback
(aquele livrinho bem modesto, com miolo em papel “de pão”, capa que
rasga com um sopro e formatação minúscula) de sucessos estrondosos,
depois de tiragens de lançamento terem se esgotado (rápido, senão não é best-seller).
Na Europa, especialmente na França, livros de crítica literária e de arte e ciências humanas ganham pockets.
Você precisa entender o quanto isso é sintomático. Só livros que são
absoluto estouro de vendas ganham edições de bolso. Temos de levar em
conta que as edições iniciais por lá são de cinco, dez mil livros. Aqui,
em caso de livros técnicos, se mil venderem em cinco anos, ele é um
arraso.
Ok, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você.
Outra coisa muito importante dentro desse quadro que você precisa ter em mente é que os livros best-seller
americanos estão em sua língua nativa, portanto eles não têm um alto
investimento em tradução para recuperar. Assim sendo, os primeiros
investimentos para colocar um lançamento no mercado tendem a ser
recuperados mais depressa. Ou seja, um livro de bolso brasileiro do
George R. R.Martin dificilmente vai ser tão barato quanto um americano,
mesmo tendo a mesma (baixa) qualidade e (alta) tiragem, pois aqui se
somam os custos de tradução e demais trabalhos editoriais que o original
não recebe, bem como o adiantamento de direitos autorais já mencionado.
Além
disso, a qualidade gráfica desses livros baratos é muito inferior à dos
nossos livros. Na verdade, mesmo as edições de luxo: eles não imprimem a
capa na parte dura, põem sempre uma luva em papel couché ou similar (que amassa e rasga que é uma beleza).
Por que não fazemos edições baratinhas, então? Aqui, até as editoras de livros pocket usam qualidade gráfica melhor, usando no mínimo offset (o papel branco normal).
Por
mais que eu conheça pessoas que declaram gostar de comprar edições
estrangeiras, e que gostariam de ter similares aqui, a realidade tem se
apresentado diferente desse discurso.
O nosso público leitor é menor e mais exigente em questão de qualidade de material.
Se
você discorda, repare em algumas situações que se repetem atualmente.
Por exemplo, em megapromoções do Submarino, é comum o livro vir com
qualidade inferior: capa mais fina, brilhante (no lugar daquela fosca
com verniz localizado), papel branco (no lugar do amarelo), sem orelhas.
Você
vê pessoas falando: “Nossa, que legal, baratearam a edição para
conseguir vender mais barato”? Até que vê. Às vezes. Mas o que
testemunhamos mais é uma enxurrada de “Aff, fui enganado, olha que livro
vagabundo, não é a edição da livraria”. Claro que não, cara pálida.
Você faz ideia do quanto custa imprimir um livro (especialmente os mais
grossos) com orelhas, capa em papel supremo, fosca, com verniz e miolo
em pólen ou avena (amarelos)?
Reclamam
da qualidade das edições feitas para vendas ao governo, destinadas à
distribuição em escolas públicas, por terem qualidade gráfica muito
inferior.
Nas
feiras de livros, das menores às bienais, enquanto vendia livros, vi
muita gente deixando de comprar tal livro porque o papel é branco,
porque não tem orelha, porque a formatação parece “espremida”.
O povo adora as edições de bolso capa dura da Zahar, né? Quer edição bonita, tem que pagar por ela, porque a editora já pagou.
O mercado literário, como qualquer outro, é regido pela lei da oferta e da procura. Se as editoras recebessem verdadeira demanda
de edições mais simples e baratas, elas as colocariam no mercado. Em
vez disso, o pouco que se coloca costuma ser desdenhado e demorar mais a
vender. Até as editoras especializadas em publicação de edições de
bolso estão cada vez mais criando edições de bolso “de luxo”. Esse
movimento tem uma razão de ser, ou não aconteceria. Algo que demora a
vender configura dinheiro investido sem retorno, dinheiro parado,
prejuízo.
Daí
você me diz: “mas eu compro edições gringas, então sou consumidor desse
tipo de livro”. Compra, e reclama que rasgou, que a lombada fica
danificada. E você não é maioria (novamente, se fosse, haveria o produto
no mercado).

Uma última palavrinha sobre megapromoções

Cito Submarino e, mais recentemente, Amazon, por serem as lojas que trazem promoções de livros físicos a R$ 9,90, box de cinco livros por R$ 40,00, e outras coisas igualmente insanas.
Como isso é possível?
Há duas situações.
Em uma delas, feliz, os livros já se pagaram e agora só dão lucro. Se a loja recebe R$ 9,90, à editora é repassado valor bem
menor que esse. Podemos chutar uns 50%? Muito, mas sejamos otimistas.
Então as tiragens são imensas (custo de gráfica menor por exemplar), o
autor recebe direitos autorais em condições especiais (geralmente sobre o
preço de venda, e não o de capa), e o investimento inicial da editora
no trabalho editorial, publicitário e comercial já foi recuperado.
Se
não for nessas condições, a promoção só é possível com
encalhes — livros que não vendem e dão prejuízo à editora se muito tempo
parados no estoque, já que o estoque é pago de todo modo. Então, a
participação em uma promoção dessas é uma forma de perder menos dinheiro.
Então, para concluir, é o seguinte: se o livro vender muito, ele fica mais barato.
Se o preço não abaixa, costuma ser porque ainda não se pagou.
Se o preço abaixar sem o livro ter se pagado, ele dá prejuízo aos envolvidos.
Se o livro não se pagou, é porque não vendeu.
Considerando
tudo o que expliquei neste longo texto, não acho o livro caro no
Brasil. Mas, se você quiser achar, tudo bem. Só entenda que você, na
qualidade de consumidor, tem uma parcela de culpa nisso.






fonte:

Livro no Brasil não é caro coisa nenhuma – Cabine Literária – Medium

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