A Estrada de Ferro Maricá





José Carlos Pelosi



Está começando o asfaltamento das principais ruas e avenidas de Itaipuaçu. Convivendo há tanto tempo com lama e buraco,
a simples presença do betume em nossas portas traz sentimentos de
alegria e espanto. Mas não é a primeira vez que essa chegada do futuro à
região é acompanhada de surpresa. Se agora é o asfalto, no início do
século passado foi a instalação dos trilhos da Estrada de Ferro Maricá
que trouxeram o espanto. Mas a esperança dos trilhos durou pouco: a
preocupação com o lucro para o então recém instalado transporte
rodoviário e para as fábricas de automóveis dizimou o leito ferroviário,
que hoje poderia ser uma atração turística, unindo Neves (São Gonçalo) a
Cabo Frio. Infelizmente, a ignorância e a ganância não permitiram a
convivência entre trilhos e asfalto.


O MATA SAPO

A viagem do primeiro trem foi feita em 10 de junho de 1888, entre as
estações de Neves (São Gonçalo) e Virajalba Rio do Ouro. Logo nos
primeiros meses de funcionamento a composição puxada pela “Maria Fumaça”

trouxe apelidos interessantes que permanecem no jargão ferroviário,
como a expressão “mata-sapos”, que designava os comboios que faziam os
horários noturnos. Até hoje, há uma região próxima a Rio do Ouro, que é
conhecida como “Cala a Boca”, porque ali era o local mais estreito por
onde passava o trem, fazendo com que os passageiros devido ao medo
ficassem calados.

Em 1988, como repórter do Jornal do Brasil,
tive a oportunidade de reviver boa parte dessa história, em relatos de
antigos moradores de locais por onde passavam os trens e descentes de
ferroviários, que se transformaram em matéria publicada na edição do JB
de 5 de setembro de 1988.

O inglês George Bria, de 93 anos, não
ouve mais o apito do trem. Está hoje preso a um leito, doente, assistido
por enfermeiras na Fazenda Boavista, em Jaconé. Perto dali, em outro
leito, repousa o que restou da Estrada de Ferro Maricá, condenada à
morte pelo presidente Jânio Quadros, em 1962, e desativada
definitivamente dois anos mais tarde, no governo do marechal Castelo
Branco. Bria foi diretor da Estrada de Ferro Leopoldina, que
administrava o ramal de Maricá, mas hoje não pode falar por causa da
doença. Pelo velho caminho do trem, no entanto, muita gente ainda
aguarda o som da Maria Fumaça. Se alguém pergunta pela velha ferrovia, a
resposta é ua espécie de esperança: “ela vai vortá?”.
José Carlos Pelosi / JB / 5 setembro 1988

NA TRILHA DA MARIA FUMAÇA

Também em 1988, a matéria foi adaptada para publicação na Revista Duas
Rodas, depois de uma trilha de moto ao longo do que foi o trecho de 157
quilômetros da antiga ferrovia.

O começo da trilha é a estação
inicial da estrada de ferro, em Neves (São Gonçalo), ao lado do
laboratório farmacêutico da Polícia Militar. Quando a estrada de ferro
foi desativada, prometeu-se à população a costrução de um posto de saúde
em seu lugar. Mas, sinal dos tempos de 1964, a estação transformou-se
em um presídio para fins políticos. Atualmente, lá estão sendo
construídos a delegacia e o presídio de Neves, para tristeza de Dona
Felicidade, proprietária do Restaurante Paris, bem em frente. Ela
costumava servir refeições ao chefe da estação. De Neves, o Mata-Sapo –
como era conhecido o trem que ia até Cabo Frio – seguia pela rua Doutor
Jurumenha, onde se podem ver os dois únicos trilhos que ainda restam da
antiga linha, bem em frente ao número 4.613. Pela Av. Maricá, chega-se
até a estação de Raul Veiga. Ela continua preservada em suas cores
oruiginais, azuil e amarela, graças a Antonio Arruda, o antigo segurança
da RFFSA, morador desde 1962.

Vale a pena conhecer um pouco o
Seu Antonio, um paraibano de Campina Grande, “23 filhos e netos de
perder a conta”. O interior da estação – uma casa de cinco quartos –
está repleto de fotografias de Getúlio, Juscelino e Tancredo. Nos fundos
estão a rede de seu Antonio e sua criação de pássaros, onde ele recita
suas poesias sobre os sentimentos humanos, começando pela letra A, indo
até Z. Deixando para trás a estação de Raul Veiga, mais alguns
quilômetros e chega-se à estação de Ipiíba, no Km 19 da Estrada Santa
Isabel, ao lado de uma garagem de ônibus. Dali em frente, pegamos pela
primeira vez um caminho de terra, pela Estrada de Ipiíba. As fazendas
são deslumbrantes. Esse caminho termina já em Rio do Ouro, na Rodovia
Amaral Peixoto, na qual o trem seguia exatamente ao lado, passando pela
Praça de Maricá, onde ficava a estação, até a parada de Manel Ribeiro,
na altura do quilômetro 60. Nesse ponto, o trem entrava à direita para
contornar a Serra de Mato Grosso, onde não há trilhas possíveis nem para
motocicleta. Assim, o jeito é continuar pela Amaral Peixoto e pela
estrada de Ponta Negra, até que esta cruze novamente com o caminho do
trem (exatamente no entroncamento da estrada de Ponta Negra, de asfalto,
com a estrada de Jaconé, de terra.)

O MAR, A FÉ E A VELHA USINA

Pela primeira vez, o mata-sapo está próximo ao mar. Pela trilha de
terra que vai até Sampaio Correia avista-se o campo de golfe de Roberto
Marinho, que ocupa oito quilômetros da Praia de Jaconé. O visual,
principalmente no fim da tarde, é lindo. Um pouco mais adiante está a
pequena igreja de São Pedro, o padroeiro dos pescadores, cuja entrada
principal está voltada para a Lagoa de Jaconé. Essa igreja foi erguida
por uma francesa, em memória de seu filho Reneé de Champs, que morreu no
grande surto de impaludismo na década de 40. Todos os anos, no dia de
São Pedro, a imagem de Nossa Senhora de Nazareth de Saquarema é
carregada em procissão na igrejinha até a divisa dos municípios de
Saquarema e Maricá, no pequeno andor de palha que é guardado até hoje
dentro do templo. Prosseguindo, a trilha volta à rodovia Amaral Peixoto,
passando pelas ruínas de uma antiga usina de açúcar. Pela estrada,
chega-se até o centro de Bacaxá, onde não existe mais a estação. O leito
da estrada segue por Araruama, passa por Iguaba, e chega até São Pedro
da Aldeia, onde a estação, localizada na confluência com o trecho da
estrada que vai para Cabo Frio, chegou a ser utilizada como um pequeno
terminal de ônibus e hoje abriga a sede regional do Iphan. Dali o
destino final é Cabo Frio. Parte da antiga estação está em frente à área
do Camping Clube de Cabo Frio.
Revista Duas Rodas/1988

Nota
da Redação: As entrevistas e roteiros publicados aqui são do ano de
1988. Vinte e cinco anos depois, é claro, alguns dos citados e
entrevistados não vivem mais. Também lugarejos, estações e propriedades
foram modificados. Porém, a Estrada de Ferro Maricá é uma lenda viva e
seus trilhos, com imaginação, e baseando-se nestes relatos, podem e
devem ser revisitados.

http://www.acheirevista.com.br/se…/estradadeferromarica.html




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