Habitações no BI: “Tudo pela Cidade Dormitório!”

Neste artigo, o professor e comunicador Frederico Carvalho, presidente da União dos Jornalistas e Comunicadores de São Gonçalo, expressa seu pensamento a respeito do destombamento da área do 3º BI.

3º BI - Foto extraída do blog "Território Gonçalense"


Na década de 1960, por ocasião daquele triste episódio do incêndio do circo, Niterói não tinha como arcar com o número de mortos da tragédia. A solução encontrada, por boa vontade do município vizinho, foi enterrar as vítimas em São Gonçalo, numa área praticamente central, que servia de vista bucólica para o então Palacete do Mimi, um lugar de glamour e de grandes festas seletas, com gente importante circulando, dando a São Gonçalo a visibilidade que merecia no cenário de então. A vista bucólica se encheu de enterros, corpos, sepulturas... Aos poucos o Palacete foi perdendo o seu glamour. Os vivos ilustres deram lugar aos mortos da tragédia. A “Manchester Fluminense” começou a se desfigurar e a cidade se tornou “dormitório”. Aliás, não se libertou do título.
Em 2010, novo desastre abala São Gonçalo e Niterói. Uma enchente terrível vitima inúmeras pessoas em áreas ribeirinhas e próximas à Baía de Guanabara, em São Gonçalo. Em Niterói, o Morro do Bumba, formado a partir de entulho, desmorona. Mortos e desabrigados nos dois municípios. O lixão do Morro do Céu está superlotado. Corre o mesmo risco de desabamento. São Gonçalo socorre os desabrigados de Niterói com mais afinco do que cuida de seus próprios desabrigados do entorno de Itaóca. Na mesma Itaóca do então lixão condenado, caminhões e caminhões de lixo do Bumba foram vazados, inclusive com restos mortais humanos, sem o menor cuidado com a saúde pública. E a Itaóca sofrida ainda tinha que ter fôlego para socorrer Niterói quando ela própria precisava de socorro.
Construíram no Anaia, local de relevante cuidado ambiental, um “Aterro Sanitário”, que substituiria o Lixão de Itaóca, com higiene e proteção total ao meio ambiente. Muitos de nós já denunciávamos que o local fora mal escolhido, que se tornaria um lixão e que traria danos à população local. Estávamos errados? Anaia é lixão (lixão mesmo!) privado, no qual se vaza resíduos de São Gonçalo, Niterói, ou de qualquer lugar que ali quiser fazer o seu despejo. É ali, em meio ao mau cheiro, à insalubridade e aos urubus, que vão construir casas populares, quase que tratando pessoas como lixo e as despejando no próprio lixo. E São Gonçalo continua dando a sua contribuição pelo progresso dos outros, à custa de si própria.
Moradores do entrono de Itaóca, sofridos pelo lixo e pela mesma enchente do Bumba, ficaram abandonados e ainda perderam seu sustento, tirado do lixo, pela desativação do vazadouro local. Empresas assumem e tratam as famílias com descaso infindo, diferentemente da ação em Gramacho, em que os moradores foram bem tratados. Aqui desemprego, desabrigo, doença e fome. Mas o metano é uma grande fonte de renda para quem o recolhe. O pobre morre pelo bem estar financeiro de alguns ambiciosos.
E agora a área do 3º BI. Incursões insistentes sobre os políticos locais para destombamento da área. Área essa de importante projeção histórica e ambiental para o Município. Aqui querem construir casas populares. Mas quem disse que precisamos de casas populares? Mais casas significa mais moradores. Moradores esses que vão trabalhar em Niterói, no Rio ou em Itaboraí. Aqui eles só vão dormir. “CIDADE DORMITÓRIO!” Dormem em São Gonçalo, trabalham oito horas por dia fora daqui, passam quatro horas em condução e não têm tempo para estudar ou para recrear. “CIDADE DORMITÓRIO!” E se não estudam não pegam as melhores posições de trabalho. Ganham pouco e gastam onde trabalham mais do que na própria “CIDADE DORMITÓRIO!” em que residem. Mesmo porque quem está em Venda da Cruz prefere pegar um ônibus para Niterói do que para São Gonçalo. É mais vantagem gastar lá do que aqui. Todo mundo ganha, menos São Gonçalo que só tem cultura por causa da abnegação de alguns e, diga-se de passagem, pela boa vontade do Secretário atual.
São Gonçalo não precisa aumentar o número de dormitórios. Ao contrário precisa acordar para seus reais problemas que, pela ordem, não apresentam habitação em primeiro lugar.
No 3º BI nós precisamos é de um quartel da PM, de um quartel de Bombeiros, de delegacia, de posto de saúde, de área de lazer, de ponto de cultura, de centro esportivo. Tudo o que se possa fazer pela preservação da identidade histórica e ambiental do Município, prestando serviços de qualidade para o Munícipe.
Mais do que habitação, nós precisamos de segurança porque as UPPs cariocas estão nos sufocando e nosso pobre 7º Batalhão tem pouco contingente para os que já moram aqui.
Mais do que habitação, precisamos de mais saúde, de mais escolas de qualidade, de turismo estimulado, de cultura sendo respirada nos quatro cantos deste rincão.
Não faltam áreas passíveis de desapropriação para construir casas populares. O que faltam são áreas de qualificação do trabalhador, condução digna, criação de empregos que permitam que se trabalhe perto de casa, com dignidade.
Se não acordarmos agora, continuaremos menosprezando São Gonçalo. Dorme-se aqui para se gastar lá. Quem dorme não precisa de serviços que qualidade. Esses são para os que estão acordados e ativos.
Abaixo o destombamento do BI!
Abaixo a subutilização do espaço!
Não queremos mais dormir. Precisamos acordar para o progresso!

prof. Frederico Carvalho

fonte: Habitações no BI: “Tudo pela Cidade Dormitório!”

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