Rafael Zulu - "sou totalmente gonça"

zulu

Entrevista no Jornal "O Dia"

Rafael Zulu,nascido em São Gonçalo.



O DIA — Como esse personagem tão peculiar chegou até você?

Rafael Zulu — Estávamos terminando de gravar ‘Caras e Bocas’ e o Jorginho (Fernando, diretor) já tinha a ideia do remake. Ele generosamente me avisou que ia rolar um personagem gay e sugeriu que era a minha cara, mas que teria que passar pela fase dos testes. Eu disse: “Mas é só isso que eu quero, ter a oportunidade de fazer o teste. Acabou que três meses antes de começar a gravar a novela, ele derrubou a seleção e me convidou.

— Mas como assim ele sugeriu que o Adriano, um assistente de moda e gay, era a sua cara?

— Não era porque o Adriano é gay, mas porque ele achava que eu ia fazer bem. Ele achou que seria interessante e contraditório ter um negão, grandão, que nem é o caso, totalmente gay e de um jeito afetado, extravagante.

— Se inspirou em alguém?

— Bom, segundo o Jorginho, o Adriano foi inspirado no crítico de moda norte-americano Andre Leon. O jeito extravagante tirei de Jorge Lafon, que é bem do meu perfil, extremamente escandaloso, bagaceiro, mas chic, como uma girafa desengonçada, mas elegante. O Clodovil também foi outro cara que pesquisei, muito fino e muito gay.


— Acha que há preconceito por ele ser negro e gay?

— O Adriano é tão bem resolvido, profissionalmente e sexualmente, que o preconceito é o que menos importa para ele. Se ele perceber algum comentário dessa natureza, ele vai olhar e dizer: “Meu Deus, de que mundo essa pessoa saiu?”

— Mas você se incomoda?

— Não tenho escutado ti-ti-ti na rua. Eu, como negro, acho ótimo juntar esses temas (homossexualidade e racismo) delicados e levar para a casa das famílias brasileiras.

— André Gonçalves chegou a ser agredido nas ruas, na época em que viveu o Sandrinho, de ‘A Próxima Vítima’, em 1995. Teve algum receio de aceitar o personagem?

— Acho que pode haver, sim, violência contra um ator nos dias de hoje. O Jackson Antunes, que fez um marido agressivo em ‘A Favorita’ e batia na personagem da Lilia Cabral, não foi agredido? Alguns amigos recomendam para eu ter cuidado na rua. Embora o Adriano esteja numa novela das sete, mais leve e divertida, algumas pessoas se envolvem com o personagem.

— Como profissional, já sentiu um olhar preconceituoso por ser negro?

— Não, nunca deixei de fazer um trabalho em função disso. Acho que está vinculado com uma boa postura. Sou como todo mundo, entro num restaurante, me sento, como e pago como todos. Não percebo esse olhar medíocre do preconceito. Sou muito bem resolvido.

— Toparia dar o primeiro beijo gay da TV brasileira?

— Certo, mas acho que não vai acontecer com o Adriano. É uma novela das sete. Mas não estou nessa profissão para brincar. Não teria problema algum em beijar um homem se estivesse no propósito do trabalho. Assim como beijar uma mulher tem que fazer sentido.


— E ensaio sensual?

— Nunca fiz, não tenho nada contra, mas uma coisa não combina com a outra. Não deixa de ser um trabalho artístico, só que não combina comigo.

— Como se vira com o assédio?

— Aumentou significativamente com a chegada do Adriano na minha vida, mas as cantadas são bem leves. Me viro bem. E acho ótimo o carinho do público, o retorno.

— Aumentou por ele ser gay?

— Acho que sim. A mulher que se interessa por um gay, quer, na verdade, provar que um dia um gay se interessou por ela, mesmo na condição dele. Ele vai sair, dormir com ela quem sabe, e voltar para o companheiro. O fato de o Adriano ser dúbio permite esse interesse nele. Ele já foi visto pegando a Thaísa (Fernanda Souza) e a Help (Beth Gofman). Tem muita gente desconfiando que ele não é gay.

— O assédio ajuda ou atrapalha nessa fase solteira?

— Terminei um namoro de três anos e meio, estou solto há cinco meses, naquela fase que quero me curtir. Não tenho a menor pretensão em encontrar alguém agora. Por hora, o assédio não tem ajudado, mas não atrapalha.

— O que mudou na sua vida com a fama?

— Nada. Moro no mesmo lugar em São Gonçalo, na mesma casa, tenho os mesmos amigos. Eu me divido um pouco em dias de gravações muito aceleradas entre Barra e São Gonçalo, mas costumo dizer que sou totalmente gonça.

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